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segunda-feira, 14 de novembro de 2022

MOY FAT LEI FAMILY´S NEW DISCIPLE

A Familia Kung Fu se reuniu mais uma vez em nosso querido restaurante Chinatown na cidade do Rio de Janeiro, para formalizar a condição de Daniel Eustáquio como membro vitalício em minha Família Kung Fu. Além dos membros da minha Família, representantes de outros Clãs e Famílias Kung Fu do Rio de Janeiro, também se fizeram presentes. E ao adentrar o segundo andar do restaurante naquela manhã, e perceber todos que estavam lá além dos que chegavam aos poucos, sabia que devido a problemas de transito em nossa cidade e de dificuldades com agenda, houve um esforço real de cada um que ali estava. E me senti muito grato por todas as aquelas pessoas presentes. Eu tinha o costume de tentar deixar de fora as pessoas que não confirmavam sua participação até a data estabelecida nos eventos da Família Moy Jo Lei Ou. Sobre isso, meu Si Fu dizia - “Thiago, sem as pessoas, nada faz sentido.” - E ele estava certo. 

The Kung Fu Family gathered once again in our beloved restaurant Chinatown in the city of Rio de Janeiro, to formalize Daniel Eustáquio's status as a special student of my Kung Fu Family. In addition to my Family members, representatives of other Kung Fu Clans and Families from Rio de Janeiro were also present. And when entering the second floor of the restaurant that morning, and realizing everyone who was there besides those who arrived little by little, I knew that due to traffic problems in our city and difficulties with the schedule, there was a real effort from everyone who was there. . And I felt very grateful for all those people present. I used to try to leave out people who did not confirm their participation until the deadline established in the events of the Moy Jo Lei Ou Family. About this, my Si Fu used to say to me - “Thiago, without people, nothing makes sense.” - And he was right.

Quando a Cerimonia de “Baai Si” começa com a “Abertura Cerimonial”, que na ocasião foi lida pelo meu discípulo Keith Markus. Sempre observo meu Si Fu sorrindo, olhando ao redor, e por vezes mandando uma piscadela para alguém que não lhe foi possível cumprimentar quando chegou. Eu ainda não consegui atingir esse nível, preciso me concentrar no que dizer para ajudar a dar mais peso ainda ao potencial simbólico que este instrumento carrega nele próprio. Ou talvez eu só seja alguém de cara fechada mesmo... De toda forma, essa era a sétima cerimonia de minha Família Kung Fu, a receber um novo discípulo. São sete anos de Família, uma média de uma cerimonia de discipulado por ano. Nesse tempo, alguns discípulos se afastaram, outros se foram para sempre, alguns retornaram e outros sempre permaneceram. Porém, eu sempre estive lá. O Si Fu costuma dizer que a pessoa precisa se sentir tranquila para se afastar quando quiser, e para retornar também. Por ser o compromisso de uma vida toda, você precisa estar inteiro e com o coração aberto para todas essas idas e vindas. Porém, elas não simples. E naquele exato momento, por mais criativo que fosse, não conseguia nem de perto imaginar o que está por vir na minha relação com Daniel Eustáquio.  Uma relação que não tem paralelos no ocidente, mas que após 23 anos na Família Kung Fu, aprendi o quão recompensadora e desafiante ela pode ser. 

When a “Baai Si” Ceremony begins with the “Ceremonial Opening Text Reading”, which at the time was read by my disciple Keith Markus. I always observe my Si Fu smiling, looking around, and sometimes sending a wink to someone who was unable to greet him when he arrived. I still haven't managed to reach that level, I need to concentrate on what to say to help give even more weight to the symbolic potential that this instrument carries within itself. Or maybe I'm just someone with a not friendly face anyway... Anyway, this was the seventh ceremony of my Kung Fu Family, to receive a new disciple. There are seven years of the Family, an average of one discipleship ceremony per year. In that time, some disciples departed, others are gone forever, some have returned, and some have always remained. However, I was always there. Si Fu usually says that the person needs to feel calm to walk away whenever they want, and to return as well. Because it's a lifetime commitment, you need to be whole and with an open heart for all these ups and downs. However, they are not simple. And at that exact moment, as creative as I was, I couldn't even begin to imagine what was to come in my relationship with Daniel Eustáquio. A relationship that is unparalleled in the West, but after 23 years in the Kung Fu Family, I learned how rewarding and challenging it can be.
Daniel é de uma geração diferente da minha... Outro dia, ele estava me contando sobre sua talvez única experiência numa video locadora com seu pai, algo que eu fazia todas as Sextas com minha mãe. Daniel sem saber e sem planejar, promoveu um marco muito especial na minha trajetória: Ele foi o primeiro discípulo a me pedir para entrar na Família Kung Fu. 
Esse momento é bem simbólico para mim, pois até então eu convidava a pessoa, mas acho que o interesse precisa ser do aspirante a membro. Eu mesmo pedi a meu Si Fu em Fevereiro de 2007. 
Era uma tarde qualquer no Mo Gun da minha Família Kung Fu, naquela ocasião eu tinha uma conversa com um discípulo que estava se afastando, e no momento em que pedi para ouvi-la um pouco o Daniel chegou. Foi um momento bem curioso, talvez até mágico, pois em seguida Daniel falou do seu interesse em entrar para  a Família. Me permiti abrir um sorriso naquele momento. Afinal, o praticante escolhe o estilo, a Família, o Si Fu que deseja. Além disso, o período pelo qual vai se dedicar, também é escolha sua. E naquela única hora, tudo isso acontecia bem diante de mim. 

Daniel is from a different generation than mine... The other day, he was telling me about his perhaps only video rental experience with his father, something I did every Friday with my mother. Daniel, without knowing and without planning, promoted a very special milestone in my trajectory: He was the first disciple to ask me to join the Kung Fu Family.
This moment is very symbolic for me, because until then I invited the person, but I think the interest needs to be from the aspiring member. I even asked my Si Fu the same in February 2007.
It was any given afternoon at my Kung Fu Family's Mo Gun, on that occasion I had a conversation with a disciple who was leaving, and at the moment I asked to listen from she a little, and Daniel arrived. It was a very curious moment, perhaps even magical, as Daniel then spoke of his interest in joining the Family. I allowed myself to smile at that moment. After all, the practitioner chooses the style, the Family, the Si Fu he wants. In addition, the period for which he will dedicate himself is also his choice. And in that single hour, all of this was happening right in front of me.


Além do meu Si Hing Leonardo, outros Mestres também estiveram presentes e deixaram suas considerações ao microfone durante a Cerimonia. Meus Si Suk Felipe Soares e Ricardo Queiroz, fizeram essa gentileza. Ambos que tiveram e continuam tendo papel fundamental em minha trajetória. Também quero destacar as presenças da Sra Cátia Reis e da Sra Flavia Bambrilla, esposas do Si Hing Leonardo e do Si Suk Ricardo, respectivamente. 

In addition to my Si Hing Leonardo, other Masters were also present and left their considerations on the microphone during the Ceremony. My Si Suk Felipe Soares and Ricardo Queiroz, did this kindness. Both who had and continue to play a fundamental role in my trajectory. I also want to highlight the presence of Mrs Cátia Reis and Mrs Flavia Bambrilla, wives of Si Hing Leonardo and Si Suk Ricardo, respectively.

Em 2006, eu recebi um “Tong Jong” de presente da minha irmã Kung Fu Paula Gama. Ela também fez um aniversário surpresa para mim naquele mesmo ano quando me entregou a peça de roupa. Eu estive com essa vestimenta em muitos momentos marcantes, até mesmo minha formatura na faculdade. Mas naquele momento, eu achei que deveria dá-lo para o Daniel. Afinal, durante a Cerimonia, olhei algumas vezes para o Daniel sentado meio desconjuntado na cadeira como alguém da idade dele faria, com um brinco de argola, sua namorada presente... E não pude evitar de lembrar da minha própria trajetória. Quando ganhei essa peça de roupa, aquele era de certa forma um retrato da minha vida... E como sinal de boa sorte e para materializar o quão importante aquele momento era para mim, resolvi lhe dar o meu Tong Jong favorito. 

In 2006, I received a “Tong Jong” as a gift from my Kung Fu sister Paula Gama. She also had a surprise birthday for me that same year when she handed me the garment. I wore this outfit in many memorable moments, even my college graduation. But at that moment, I thought I should give it to Daniel. After all, during the Ceremony, I looked a few times at Daniel sitting a bit disjointed in the chair as someone his age would, with a hoop earring, his girlfriend present... And I couldn't help but remember my own trajectory. When I got this piece of clothing, that was, in a way, a portrait of my life... And as a sign of good luck and to materialize how important that moment was for me, I decided to give him my favorite Tong Jong.

Meu Si Fu costuma dizer que devemos pegar a vida do ponto em que nosso ancestral nos deixou, seja ele nosso pai ou Si Fu, e fazer melhor a partir dali. Bem, no dia do meu Baai Si, foi Si Fu que me abraçou apertado e eu não sabia nem como retribuir. Nunca fui muito de demonstrar carinho dessa maneira, sempre mais fechado coube a Si Fu faze-lo em Maio de 2007. Porém, Daniel por outro lado já consegue demonstrar afeto de maneira natural. E já mostra, que de maneira organica, conseguiu dar um passo a frente do que consegui bem no dia do meu Baai Si. Prece-me um bom sinal para começar uma nova história.

My Si Fu usually says that we should pick up life from the point where our ancestor left us, be it our father or Si Fu, and do better from there. Well, on the day of my Baai Si, it was Si Fu who hugged me tight and I didn't even know how to reciprocate. I was never very fond of showing affection in this way, it was up to Si Fu to do it in May 2007. However, Daniel on the other hand is already able to show affection in a natural way. And he already shows that in an organic way, he managed to take a step forward from what I achieved on the day of my Baai Si.It gave me a good sign for this new story.

 

A Disciple of Master Julio Camacho
Thiago Pereira "Moy Fat Lei"
moyfatlei.myvt@gmail.com


 


 

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

BLADE RUNNER dinner style w/ Carlos Antunes


Numa noite de Sexta, saí do Méier para ir ao encontro do meu irmão Kung Fu Carlos Antunes. Ele havia me convidado para jantarmos juntos. Como nos encontramos com certa frequência, não vi nada demais, porém estranhei o bairro que ele escolheu. Ainda tentei argumentar sugerindo que escolhêssemos algum local em Ipanema, onde ele reside, mas ele estava firme em sua decisão. Cheguei mais cedo, como de costume, e fui até um McCafé para tomar um espresso e carregar meu telefone. Passados alguns minutos, Carlos avisou que havia chegado, nos encontramos então no Largo que dá nome ao bairro. Muito animado como sempre, Carlos me cumprimentou com seu forte abraço que lhe é característico. A energia do Carlos sempre está lá no alto, e quando não está, ele faz com que esteja. Isso é algo que admiro nele, pois eu não consegui desenvolver essa habilidade até hoje. 
Carlos sabia exatamente para onde estava indo, e enquanto desviávamos de pessoas que andavam apressadas para chegar a estação do metro e irem para casa, finalmente passamos por um misterioso portão de grade que parecia não levar a lugar nenhum. Ele ficava espremido entre duas construções, e mesmo passando ali de bicicleta pelos últimos quatro anos, nunca havia reparado. Foi quando reparei algumas mesas, pessoas comendo comida chinesa, e um restaurante de Dim Sum. 
O vapor com cheiro de óleo e gordura, impregnava o ar, e conseguíamos ver ele lentamente se movendo enquanto escolhíamos uma mesa. Era possível ver a cozinha ao passar por ela, e todos estavam agitados lá dentro, enquanto as pessoas comiam calmamente. Finalmente escolhemos nossa mesa. Eu ainda estava me situando, ainda estava tentando acreditar que aquele local estava ali por tanto tempo, e eu nem havia percebido. Lembrei-me da passagem 'O caminho do surf', que Si Fu descreveu logo no início do seu livro 'O Tao do Surf' [Camacho, Julio. 2002]. Enquanto eu divagava, meus olhos cruzaram com os de Carlos Antunes, que com um grande sorriso, parecia muito feliz. 

One Friday night, I left Méier wild neighborhood to meet my Kung Fu brother Carlos Antunes. He had invited me to have dinner together. As we meet quite often, I didn't see anything special, but I was surprised by the neighborhood he chose. I even tried to argue by suggesting that we choose a location in Ipanema, where he lives, but he was firm in his decision. I arrived early, as usual, and went to a McCafé to get an espresso and charge my phone. After a few minutes, Carlos announced that he had arrived, so we found ourselves in the Plaza that gives the neighborhood its name. Very excited as always, Carlos greeted me with his characteristic strong hug. Carlos' energy is always up there, and when he's not, he makes it so. That's something I admire about him, as I haven't been able to develop that skill until today.
Carlos knew exactly where he was going, and as we dodged people rushing to the subway station and heading home, we finally passed a mysterious grid gate that seemed to lead nowhere. It was wedged between two buildings, and even though I'd been cycling there for the past four years, I'd never noticed. That's when I noticed some tables, people eating Chinese food, and a Dim Sum restaurant.
The steam, smelling of oil and grease, permeated the air, and we could see it slowly moving as we chose a table. You could see the kitchen as you passed it, and everyone was bustling inside as people ate quietly. We finally chose our table. I was still positioning myself, I was still trying to believe that this place had been there for so long, and I hadn't even noticed. I remembered the passage 'The way to surf', which Si Fu described at the beginning of his book 'The Tao of Surf' [Camacho, Julio. 2002]. As I rambled on, my eyes met those of Carlos Antunes, who with a big smile, looked very happy.
Eu resolvi fazer uma brincadeira com Carlos, assim que descobri que infelizmente não havia cerveja Tsing Tao no estabelecimento. Resolvi pedir uma cachaça chinesa, pois já a conhecia de três anos antes. Essa bebida alcóolica tem mais teor alcoólico do que álcool ao que parece. A bebida veio em dois recipientes de cerâmica [FOTO], e após brindarmos, Carlos virou de uma vez todo o conteúdo do copo enquanto eu apenas mal molhei os lábios já querendo rir. Carlos ao colocar o copo na mesa, já era outra pessoa[risos]. E em um impulso, ele se aproximou de mim, segurou firme em um dos meus ombros e disse com um grande sorriso e em um volume mais alto do que ele se lembra - “Si Hing! Eu gosto de você pra caramba, cara!” - Eu comecei a rir e Carlos continuou - “Eu já vim aqui com uma galera, mas eu falei que tinha que te trazer! Eu gosto de você pra caramba, cara! Isso aqui é muito 'Blade Runner! É a sua cara!'”- Carlos disse outras coisas mais engraçadas ainda, mas fica para um outro artigo... risos.

I decided to play a prank on Carlos, as soon as I found out that unfortunately there was no Tsing Tao beer in the establishment. I decided to order a Chinese liquor very heavy on alcohool, as I had already known it for three years. This alcoholic drink has more alcohol content than alcohol iself apparently. The drink came in two ceramic containers [PHOTO], and after we toasted, Carlos drained the entire content of the glass at once while I barely wet my lips, wanting to laugh. When Carlos put the glass on the table, he was already a different person [laughs]. And on impulse, he approached me, took a firm hold on one of my shoulders and said with a big smile and in a louder volume than he remembers - “Si Hing! I really like you, man!” - I started to laugh and Carlos continued - “I already came here with other friends, but I said it! I really like you, man! This is very 'Blade Runner! It's just like you!'”- Carlos said other even funnier things, but that's for another article... laughs.


Quando Carlos comentou sobre “Blade Runner”[1982], eu fiquei mais feliz ainda. Todo aquele ambiente me era familiar, mas eu não estava lembrando a razão. De fato, “Blade Runner”[1982] é um dos meus filmes favoritos, e me lembrei de quando o Deckard[Harrison Ford] é apresentado ao público comendo comida chinesa em um ambiente com muito Neon e chuva.- “Faltou só chover...” - Ponderei.

When Carlos still commented on “Blade Runner” [1982], I was happier. The whole environment was familiar to me, but I couldn't remember why. In fact, “Blade Runner” [1982] is one of my favorite movies, and the place reminded me of when Deckard [Harrison Ford] is introduced to the audience, eating Chinese food in a very neon and rainy environment. - “It could rain now. ..” - I pondered.


Conversamos sobre muitas coisas, e Carlos usou todo o seu conhecimento adquirido em muitas horas e momentos de Vida-Kung Fu para pedir a comida adequada na ordem adequada. Enquanto isso, bebíamos cada vez mais cachça chinesa. Em determinado momento, a garçonete veio com a garrafa quase vazia lá de dentro mostrando o teor alcoólico - “Gente, é isso aqui que vocês estão bebendo!” - Pedimos uma última rodada, apesar de sua preocupação[risos]. Outros clientes, perguntavam ao Carlos o que ele estava pedindo, curiosos com sua precisão nas escolhas. Por fim, nos foi dito que o cozinheiro queria nos conhecer. Carlos me acompanhou até um ponto em que pedi o UBER, e enquanto caminhávamos ele estava bem concentrado em descobrir a razão do cozinheiro querer nos conhecer. - “O que você acha que ele viu na gente?” - Ele me indagou. Bem, isso nunca saberemos. Podem ter sido as escolhas no cardápio... Pode ter sido a quantidade colossal de álcool que ingerimos ou pode ter sido a capacidade de escolher adequadamente apesar do álcool...  Risos. Mas estes são apenas fragmentos de memória, de uma noite noar em pleno Rio de Janeiro. 

We talked about many things, and Carlos used all his knowledge gained from many hours and moments of Kung Fu- Life to order the proper food in the proper order. Meanwhile, we drank more and more Chinese liquor. At one point, the waitress came with the almost empty bottle inside showing the alcohol content - "Guys, this is what you're drinking!" - We asked for one last round, despite her concern [laughs]. Other customers asked Carlos what he was ordering, curious about his precision in his choices. Finally, we were told that the chef wanted to meet us. Carlos accompanied me to a point where I asked for the UBER, and as we walked he was very focused on finding out why the chef wanted to meet us. - “What do you think he saw in us?” - He asked me. Well, that we'll never know. It could have been the choices on the menu... It could have been the colossal amount of alcohol we ingested or it could have been the ability to choose properly despite the alcohol... Laughter. But these are just fragments of memory, of a night in the middle of Rio de Janeiro.


A Disciple of Master Julio Camacho
Thiago Pereira "Moy Fat Lei"
moyfatlei.myvt@gmail.com


 



terça-feira, 8 de novembro de 2022

“A life with Kung Fu, it's a precise life” -An essay on Baat Jaam Do

 

Você precisa entender como eram as coisas no final dos anos '80 e início dos anos '90 no Rio... Não era incomum encontrar algum profissional de artes marciais, que tivesse uma formação obscura. O carisma dessas pessoas, compensava todas as dúvidas. E isso perdurou por muito tempo...
Nos final dos anos '90, encontrei a Moy Yat Ving Tsun no meu bairro, eu estava concentrado em aprender a usar o “boneco de madeira”, que eu chamava de “Mudjong” e que descobri que um nome mais apropriado em termos sistemicos seria “Muk Yan Jong”.  Não me importei com as armas que o Sistema dispunha num primeiro momento... E talvez tenha sido no ano seguinte, que surgiu uma fita VHS no Mo Gun. Esta fita era apresentada as pessoas que nos procuravam pela primeira vez. Nela, podíamos ver dentre outras coisas, pequenos clipes do Grão Mestre Leo Imamura[meu Si Gung], ilustrando cada Domínio do Sistema Ving Tsun através de movimentos.
O último clipe, era ele usando o “Do”, que são facas que se tinha acesso apenas no que eu entendia como “O último nível do Sistema”. 
Na cena, o Mestre Senior Nataniel Rosa[meu Si Baak] o abordava com uma espada, e Si Gung com movimentos bem fluidos, usava as facas para neutralizar a situação e ainda tomar a espada das mãos dele. Aquilo era muito legal! Eu tinha apenas uns 15 ou 16 anos de idade... Então aquilo me chamou muito a atenção! Mas o meu paradigma, é que “chegar até o último nível” era quase impossível... Devido a experiências pregressas, não entendia que na Moy Yat Ving Tsun, essa possibilidade existia...
Para completar, ninguém podia assistir as práticas do “Baat Jaam Do”... A não ser que estivesse naquele Domínio. Esse ar misterioso, me encantava... Mas o boneco de madeira ainda encantava mais risos.

You need to understand how things were in the late '80s and early '90s in Rio... It wasn't uncommon to find a martial arts professional, who had an obscure background. The charisma of these people compensated for all doubts. And that went on for a long time...
In the late 90's, I found Moy Yat Ving Tsun in my neighborhood, I was focused on learning how to use the “wooden dummy” as soon as I could, which I called “Mudjong” and I found that a more appropriate name in systemic terms would be “Muk Yan Jong”. I didn't care about the weapons that the System had at first... And maybe it was the following year, that a VHS tape appeared in the Mo Gun. This tape was presented to people who came to us for the first time. In it, we could see, among other things, small clips of Grand Master Leo Imamura [my Si Gung], illustrating each Domain of the Ving Tsun System through movements.
The last clip was him using the “Do”, which are knives that you only had access to in what I used to understand as “The last level of the System”.
In the scene, Senior Master Nataniel Rosa [my Si Baak] approached him with a sword, and Si Gung with very fluid movements, used knives to neutralize the situation and still take the sword from his hands. That was really cool! I was only 15 or 16 years old... So that really caught my attention! But my paradigm is that "getting to the last level" was almost impossible... Due to previous experiences, I didn't understand that in Moy Yat Ving Tsun, this possibility existed...
On top of that, no one could attend the practices of the “Baat Jaam Do”… unless they were in that Domain. That mysterious air enchanted me... But the wooden dummy still enchanted me more lol.
[Prática com o Do em uma das antigas residências do Si Fu]
[Practice with Do in one of Si Fu's former residences]

Os anos foram passando e passando... E eu cheguei lá! Nenhuma das minhas centenas de revistas de artes marciais, tinha sequer chegado perto de me mostrar o caminho até o último Domínio de um Sistema como o Ving Tsun. Foi necessária muita perseverança e paciência do meu Si Fu, o Mestre Senior Julio Camacho. 
Quando se começa tão novo, não existem apenas aspectos positivos...Pois haviam muitos problemas de maturidade e de excesso de vontade. Cada uma dessas camadas que nos impedem de nos desenvolvermos, é retirada de uma maneira diferente, em uma natureza diferente do Sistema e de abordagem na “Vida-Kung Fu”. 
Eu achava, que mesmo numa situação completamente desfavorável, eu precisa “partir para dentro”... Era melhor apanhar, do que desistir... Com esse tipo de mentalidade, me machuquei bastante na reta final do Domínio “Mui Fa Jong”. E por não ter uma compreensão mais ampla, não entendia que essa atitude era incondizente com o uso de duas facas.

The years went by and by... And I got there! None of my hundreds of martial arts magazines had even come close to showing me the way to the ultimate Domain of a System like Ving Tsun. It took a lot of perseverance and patience from my Si Fu, Senior Master Julio Camacho.
When you start so young, there are not only positive aspects... There were many problems of maturity and excess of will. Each of these layers that prevented me from developing, was removed in a different way, in a different nature of the System and approach in “Kung Fu Life”.
I thought that even in a completely unfavorable situation, I need to "go for it"... It was better to be beaten than to give up... With this kind of mentality, I got hurt a lot in the final moments of the "Mui Fa Jong" Domain. And because  I didn't have a broader understanding, I didn't understand that this attitude was inconsistent with the use of two knives.
[Prática com o querido Si Suk Homero, em um dos antigos endereços na Barra da Tijuca]
[Practice with dear Si Suk Homero, at one of the former addresses in Barra da Tijuca]

Meu Si Fu diz que o “estado de guarda” precisa ser relaxado, para que percebamos o que está ao nosso redor. Além disso, o “Do” precisa estar leve em nossas mãos, para que consigamos manuseá-lo com assertividade. E por falar em assertividade, Si Fu nunca foi contra toda a agressividade que eu demonstrava nas práticas. Ele apenas considera que uma agressividade não canalizada, se torna expansiva. E para a prática do “Baat Jaam Do”, movimentos concisos e precisos, são fundamentais. Por isso também, Si Fu costuma falar que - “Uma vida com Kung Fu, é uma vida precisa”.
Escrever é mais fácil do que fazer... Consegue imaginar o quão difícil é relaxar e estar pronto, ao mesmo tempo, com as facas nas mãos? 
O Sistema Ving Tsun é um conjunto de Domínios com diferentes naturezas... Algumas dessas naturezas, você consegue se conectar melhor, outras te desafiam...

My Si Fu says that the "state of guard" needs to be relaxed, so that we realize what is around us. In addition, the “Do” needs to be light in our hands, so that we can handle it with assertiveness. And speaking of assertiveness, Si Fu was never against all the aggressiveness I showed in the practices. He just considers that unchanneled aggression becomes expansive. And for the practice of “Baat Jaam Do”, concise and precise movements are fundamental. That's why Si Fu usually says that - "A life with Kung Fu is a precise life".
Writing is easier than doing... Can you imagine how hard it is to relax and be ready, at the same time, with knives in hand?
The Ving Tsun System is a set of Domains with different natures... Some of these natures, you can connect better, others challenge you...

O Ving Tsun é um “Sistema de Variação”, ele varia diferentes naturezas promovendo um aprendizado através do desenvolvimento humano. Sendo um Sistema de variação, ele possui também diferentes fases: Uma mais estruturada, outra semi-estruturada e uma não estruturada...
Então eu dei por mim, que o “Baat Jaam Do” não era o fim... Ele não só era o último Domínio da fase semi-estruturada do Sistema, como também nos permite enxergar o Sistema agora como um todo. Meu Si Fu costuma sugerir que pratiquemos de uma única vez todas as listagens, para ver como nos sentimos ao final...

Ving Tsun is a "Variation System", it varies different natures promoting learning through human development. Being a Variation System, it also has different phases: One more structured, another semi-structured and an unstructured...
So I realized that the “Baat Jaam Do” was not the end... It was not only the last Domain of the semi-structured phase of the System, but it also allows us to see the System now as a whole. My Si Fu usually suggests that we practice all the forms at once, to see how we feel in the end...

Tenho falado muito do meu Si Hing Leonardo[FOTO] por aqui, pois temos passado muito tempo de qualidade juntos. E sem dúvidas, uma das maiores transformações que percebi em alguém após acessar esse Domínio, foi no Si Hing. Ele conseguiu extrapolar o entendimento das facas, para qualquer coisa... É bem especial ouvi-lo falar... Ontem mesmo estávamos juntos estudando o “Biu Ji”, e ele apresentou algumas considerações muito engenhosas. Eu também tinha as minhas, mas sabia que algo nos separava: Uma compreensão do Si Hing, bem mais profunda, sobre a fase não-estruturada. Ninguém fala mais em estado de guarda do que ele em nossa Família... Uma guarda relaxada, porém viva, como Si Fu falou. Realmente, ontem foi mais um dia em que mesmo entendendo a estrutura de um Sistema de variação, ouvindo o Si Hing, percebo que o desenvolvimento humano nos permite ir ainda mais fundo...

I've been talking a lot about my Si Hing Leonardo[PHOTO] around here, because we've spent a lot of quality time together. And without a doubt, one of the biggest transformations I noticed in someone after accessing this Domain was in my Si Hing. He managed to extrapolate the understanding of knives to anything... It's very special to hear him speak... Just yesterday we were together studying “Biu Ji”, and he presented some very smart considerations. I had mine too, but I knew that something separated us: A much deeper understanding of Si Hing about the unstructured phase. Nobody talks more in a state of guard than he in our Family... A relaxed guard, but alive, as Si Fu said. Indeed, yesterday was another day when even understanding the structure of a System of variation, listening to Si Hing, I realize that human development allows us to go even deeper...

Desenvolvimento Humano, é deixar para trás coisas que nós tínhamos como certas... É descobrir que partes que nós tinhamos como nossas, não eram nossas de fato. É entender que através de uma dedicação relaxada, uma nova pessoa vai aflorar, e não será necessariamente a pessoa que gostaríamos que fossemos... Talvez seja alguém pior ou alguém melhor... Mas a pergunta que fica é: “Onde termina o aprendizado proporcionado pelo Sistema Ving Tsun? E será que queremos nos encontrar com nossas novas versões quando chegarmos lá?

Human Development, is leaving behind things that we took for granted... It's discovering that parts that we had as ours, weren't really ours. It's understanding that through a relaxed dedication, a new person will emerge, and it won't necessarily be the person we would like us to be... Maybe it's someone worse or someone better... But the question that remains is: "Where does this learning provided by the Ving Tsun System ends? And do we want to meet our new versions when we get there?


A Disciple of Master Julio Camacho
Thiago Pereira "Moy Fat Lei"
moyfatlei.myvt@gmail.com


 


 

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

“THE LAST SAMURAI”: An essay on Kung Fu Perspective part 1

 

Em “O último samurai”[Last Samurai, 2003], vemos uma cena muito marcante sobre liderança. O Sr Omura [Masato Harada] , contrata o Coronel Bagley [ Tony Goldwyin] e o Capitão Nathan Algreen [Tom Cruise], para dar fim a um levante por parte de um grupo de samurais liderados por Katsumoto [Ken Watanabe]. Em determinado momento do primeiro arco, Omura insiste que é hora de confrontar os samurais de Katsumoto, devido a um ataque que o mesmo realizou a uma linha férrea. O Coronel Bagley imediatamente ordena que Nathan Algreen[Tom Cruise] prepare as tropas para o combate. O personagem de Tom Cruise afirma que eles ainda não estão prontos, que será um desastre. Afinal, aqueles soldados não estavam habituados a combates usando armas de fogo, e temiam os samurais. 
Não tendo sucesso em sua argumentação, o personagem de Tom Cruise entra na linha de tiro de um dos personagens que está aprendendo a disparar, e pede que ele o acerte. Não obtendo o que queria, Tom Cruise aponta sua própria arma para o inexperiente soldado[foto] que trava diante do destemido Capitão. 

In “The Last Samurai” [ 2003] movie, we see a very striking scene about leadership. Mr Omura [Masato Harada] hires Colonel Bagley [Tony Goldwyin] and Captain Nathan Algreen [Tom Cruise] to put down an uprising by a group of samurai led by Katsumoto [Ken Watanabe]. At one point in the first arc, Omura insists that it's time to confront Katsumoto's samurai, due to an attack he carried out on a railway line. Colonel Bagley immediately orders Nathan Algreen [Tom Cruise] to prepare the troops for combat. Tom Cruise's character claims they're not ready yet, which will be a disaster. After all, those soldiers were not used to fighting using firearms, and they feared the samurai.
Unsuccessful in his argument, Tom Cruise's character enters the firing line of one of the characters who is learning to shoot, and asks him to shoot him. Not getting what he wanted, Tom Cruise points his own gun at the inexperienced soldier [photo] whofreezes in front of the fearless Captain.

Devido a traumas sofridos em conflitos passados ainda nos EUA, o personagem de Tom Cruise possui uma forte pulsão de morte. Não é a toa que podemos ouvi-lo dizer bem baixo - “Atire em mim, seu desgraçado.”[FOTO] - Apesar de seu desejo de morrer e de acabar com o sofrimento, Nathan Algreen[Tom Cruise] era a única liderança que não estava sendo movida por “paixões”. O desejo cego de Omura de acabar com os samurais e a ganancia do Coronel Bagley em obter os dividendos com a entrega do trabalho feito, não os permitiam enxergar que o cenário estava desfavorável. Pois segundo ouvi do Grão-Mestre Leo Imamura recentemente, muitas vezes o estrategista só enxerga o que quer ver. 

Due to traumas suffered in past conflicts in the US, Tom Cruise's character has a strong death drive. No wonder we can hear him say very quietly - "Shoot me, you bastard." [PHOTO] - Despite his desire to die and end suffering, Nathan Algreen [Tom Cruise] was the only leader who was not being moved by “passions”. Omura's blind desire to smash the samurai and Colonel Bagley's greed to obtain the dividends with the delivery of the work done, did not allow them to see that the scenario was unfavorable. Because as I heard from Grand Master Leo Imamura recently, many times the strategist only sees what he wants to see.
[Si Fu realiza o Siu Nim Tau, primeira sequencia do Sistema Ving Tsun, 
na antiga sede mundial da Moy Yat Ving Tsun]

[Si Fu performs the Siu Nim Tau, first sequence of the Ving Tsun System, in the former world headquarters of Moy Yat Ving Tsun]

Ainda em 2011 durante visita ao Núcleo Méier, Si Fu[foto] teria falado sobre “Siu Nim Tau” enquanto “Diminuir o desejo”.  Para mim, foi bem emblemático aquela fala dele, pois lembrei-me do filme “Warriors Two” [1978]. No filme, Sammo Hung interpreta “Fung Wa” o Gaai Siu Yan[apresentador formal] e irmão Kung Fu de Chan Wa Sun[interpretado por Casanova Wong]. Quando finalmente, Chan Wa Sun [Casanova Wong] é aceito na Família Kung Fu de Leung Jaan, ele pergunta ao personagem de Sammo Hung, porque o nome da primeira sequencia é “Siu Nim Tau”, e Fung Wah[Sammo Hung] lhe diz - “Porque primeiro voce precisa diminuir a ambição”.
A estranheza com que o personagem aborda o nome “Siu Nim Tau” no filme, não parece ser por acaso, já que apesar de na trilogia fundamental do Sistema usarmos o que nos é mais essencial que são nossas mãos e pés, os nomes dos primeiros Domínios do Sistema, a começar pelo Siu Nim Tau, não parecem em nada com nomes relacionados a prática marcial. Por isso, um estrategista dominado pela “vontade”, ficará cego para o cenário.

Still in 2011, during a visit to the MYVT Méier School, Si Fu[photo above] would have talked about “Siu Nim Tau” as “Decrease desire”. For me, that speech of his was very emblematic, because I remembered the movie “Warriors Two” [1978]. In the film, Sammo Hung plays “Fung Wa” the Gaai Siu Yan [formal presenter] and Chan Wa Sun's Kung Fu brother [played by Casanova Wong]. When finally Chan Wa Sun [Casanova Wong] is accepted into Leung Jaan's Kung Fu Family, he asks Sammo Hung's character why the name of the first form is "Siu Nim Tau", and Fung Wah [Sammo Hung] tells him - “Because first you need to decrease ambition”.
The strangeness with which the character addresses the name “Siu Nim Tau” in the film does not seem to be by chance, since although in the fundamental trilogy of the System we use what is most essential to us, which are our hands and feet, the names of the first System Domains, starting with Siu Nim Tau, do not look anything like names related to martial practice. Therefore, a strategist dominated by "desire" will be blind to the scenario.

No final do filme, os samurais são dizimados por Omura[FOTO] e o Coronel Bagley. Porém fica a pergunta: Será mesmo que eles venceram?
Esse artigo, foi inspirado em algo que Si Gung transcreveu recentemente em nosso grupo de estudos que quero compartilhar aqui com a Comunidade Marcial : "É chamado de acúmulo de desastres alcançar um sucesso após o outro ao persistir na Conduta Masculina. Na realidade, esses sucessos são maus presságios e fontes de ansiedade, ao ocorrerem repetidamente, a morte não estará longe. Pelo contrário, é chamado de acúmulo de mérito sofrer perdas por persistir na Conduta Feminina. Seja cauteloso e não desista, neste caso, grandes ganhos serão garantidos no futuro." (Huangdi Sijing Jinzhu Jinyi).

At the end of the movie, the samurai are decimated by Omura[PHOTO] and Colonel Bagley. But the question remains: Did they really win?
This article was inspired by something that Si Gung Leo Imamura recently transcribed in our study group that I want to share here with the Martial Community: "It is called the accumulation of disasters to achieve one success after another by persisting in Masculine Conduct. In reality, these successes are bad omens and sources of anxiety, when they occur repeatedly, death will not be far away. On the contrary, it is called accumulation of merit to suffer losses for persisting in Female Conduct. Be cautious and do not give up, in this case, great gains will be guaranteed in the future ." (Huangdi Sijing Jinzhu Jinyi).



A Disciple of Master Julio Camacho
Thiago Pereira "Moy Fat Lei"
moyfatlei.myvt@gmail.com


 


 




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sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Remote mettings with GM Leo Imamura

[Encontros semanais remotos com Si Gung para tratar do Programa VT Experience]
[Remote weekly meetings with Si Gung to deal with the VT Experience Program]

O ano de 2020 foi também um ano bem desafiador, afinal precisei me despedir de um dos discípulos mais dedicados e queridos, por conta do COVID-19. E apesar dessa perda irreparável, foi um ano de muito crescimento, amadurecimento, mas principalmente de consolidação em minha Família Kung Fu.
Foi muito especial observar como minha Família Kung Fu se uniu para que o trabalho se mantivesse em meio aquele ano de tantas mudanças aparentes e abruptas. Novas lideranças surgiram, e enquanto muitas pessoas pelo planeta devolviam os imóveis locados, transformamos o nosso Mo Gun em uma central de transmissão de LIVES. Nem mesmo foi necessário renegociar o aluguel, a Família trabalhou unida de tal forma, que seguimos como se nada estivesse acontecendo no mundo. 
Dois de meus discípulos, sugeriram com muita firmeza, que eu cessasse as atividades por conta do COVID-19, duas semanas antes de ser uma coisa decretada em nossa cidade. Eu resolvi ouvi-los. Isso me deu tempo de antecipadamente preparar aulas por duas semanas, e começar a promover encontros remotos antes do que quase todo mundo. Quando essa realidade se tornou uma necessidade, nós já estávamos sintonizados com o novo momento. 
Uma discípula minha estava morando no Mo Gun, no segundo andar. Eu resolvi acampar na recepção enquanto durasse tudo aquilo, para me obrigar a produzir mais. Minha maior diversão, era assistir os DVD´s do seriado 'Sopranos'[que um discípulo me presenteou], enquanto tomava açaí com confete M&M's, no final da noite. 
No final daquele primeiro mês, meus irmãos Kung Fu começaram a produzir aulas de maneira remota, com isso meu grupo tinha agora não só as minhas aulas como as deles também, fazendo uma agenda completa de manhã, tarde e noite. 
A partir do segundo mês, alguns dos discípulos formaram um grupo para antecipação de situações e produção de novos materiais e LIVES. Com isso, todos se sintonizaram com o que estava acontecendo, o material de divulgação ficava cada vez melhor. E eu me mantinha ativo em alta intensidade, para que a inexperiência dos discípulos que se propunham a conduzir uma LIVE, não desmotivasse os alunos iniciantes, caso não fosse adequada. E isso gerou um bom equilíbrio. 
Eu ficava muito atento as possibilidades de reabertura parcial ou total, e aos poucos, alguns alunos voltaram a frequentar o Mo Gun. 
Com isso, ao ser perguntado um ano depois por um grupo de profissionais de outras artes marciais, como conseguimos esse nível de engajamento e a coragem para investir quando todo mundo está fechando, eu atribuí ao fato de termos instrumentos que permitem o acesso ao Kung Fu em um sentido amplo, num momento em que o contato físico era desaconselhado. 


 The year 2020 was also a very challenging year, after all, I had to say goodbye to one of the most dedicated and dear disciples, because of COVID-19. And despite this irreparable loss, it was a year of great growth, maturation, but mainly consolidation in my Kung Fu Family.
It was very special to observe how my Kung Fu Family came together so that the work could continue in the midst of that year of so many apparent and abrupt changes. New leaders emerged, and while many people around the planet returned their leased properties, we turned our Mo Gun into a boradcast transmission center. We didn't even have to renegotiate the rent, the Family worked together in such a way that we went on as if nothing was happening in the world.
Two of my disciples very firmly suggested that I cease activities on account of COVID-19, two weeks before it was decreed in our city. And I decided to listen to them. This gave me time to prepare classes for two weeks, and to start promoting remote encounters earlier than almost everyone else. When this reality became a necessity, we were already attuned to the new moment.
One of my disciples was living in the Mo Gun on the second floor. I decided to camp at the Mo Gun reception room while all that lasted, to force myself to produce more. My biggest entertainment was watching the DVD's of the series 'Sopranos' that a disciple gave me, while drinking açaí with M&M's confetti in the end of the night.
At the end of that first month, my Kung Fu brothers started to produce classes remotely, so my group now had not only my classes but theirs as well, making a complete schedule in the morning, afternoon and night.
From the second month onwards, some of the disciples formed a group to anticipate situations and produce new materials and LIVES. With that, everyone tuned in to what was happening, the publicity material got better and better. And I kept myself active at high intensity, so that the inexperience of the disciples who proposed to conduct a LIVE, would not discourage beginner students, if it was not adequate. And that created a good balance.
I was very attentive to the possibilities of partial or total reopening, and little by little, some students returned to attend the Mo Gun.
With that, when asked a year later by a group of professionals from other martial arts, how do we get this level of engagement and the courage to invest when everyone is closing, I attributed it to the fact that we have instruments that allow access to Kung Fu in a broad sense, at a time when physical contact was inadvisable.

[Uma vez por semana, assistindo aos encontros remotos e fazendo anotações]
[Once a week, watching remote meetings and taking notes]

No ano de 2022, tenho me dedicado a estudar mais. Não importa que não tenhamos mais uma pandemia, mas eu vi a importância de estar preparado, e ter algo a mais para oferecer, que justifique o investimento de tempo, energia da pessoa, e seu desejo legítimo de conhecer o Kung Fu Ving Tsun.
Com isso, basicamente por todo o ano de 2022, tenho entrado ON LINE uma vez por semana com Si Gung e outros Mestres do Brasil e do exterior para trocar conhecimentos a respeito de como aprofundar nossa capacidade de entender como transmitir e preservar o Sistema Ving Tsun encontrando abordagens, palavras e estruturas de raciocínio que nos permitam conectar melhor com quem chega e com quem já está. Além disso, com nosso grupo , trocamos entendimentos e compartilhamos dúvidas ao longo de toda a semana. Tem sido um processo bem rico. Tem pessoas ali que conheço minha vida toda, e nunca conversei por mais de dez minutos, outras são o oposto disso, e esse equilíbrio, traz uma neutralidade nas relações que nos ajudam a entender para que aquele grupo serve, e não perdemos tempo com nada que não seja em função do aprimoramento. 

In the year 2022, I have dedicated myself to studying more. It doesn't matter that we don't have a pandemic anymore, but I saw the importance of being prepared, and having something more to offer, that justifies the investment of time and energy of the person, and his legitimate desire to know Kung Fu Ving Tsun.
With that, basically for the whole year of 2022, I have been going ONLINE once a week with Si Gung Leo Imamura and other Masters from Brazil and abroad to exchange knowledge about how to deepen our ability to understand how to transmit and preserve the Ving Tsun System finding approaches, words and reasoning structures that allow us to better connect with those who arrive and with those who are already there. In addition, with our group, we exchanged understandings and shared doubts throughout the week. It has been a very rich process. There are people there that I've known my whole life, and I've never talked for more than ten minutes, others are the opposite of that, and this balance brings a neutrality in relationships that help us understand what that group is for, and we don't waste time on anything that is not due to improvement.




Na noite de ontem , Si Gung falou sobre o quão feliz estava em poder viver aquele momento conosco. Segundo ele, esse era um cenário que havia visualizado por toda a sua carreira, e que muitos disseram que era impossível. 
Porém, o que mais me chama a atenção nesse processo todo desde o início do ano, é o sentimento de acolhimento. Ouvi minha Si Taai Vanise Almeida falar de hospitalidade pela primeira vez, talvez em 2012 durante uma Visita Oficial promovida pelo Núcleo Copacabana. Na época, não era o meu momento para fazer uso desse conceito. Esse ano, comecei a falar mais disso. Acho que tem sido um processo bem especial, porque nesse grupo com tantas pessoas de diferentes saberes, a impressão que dá é que o seu conhecimento importa. Por mais pueril ou basal que algo que eu pense em perguntar ou compartilhar pudesse aparentar para mim em um primeiro momento. Me sinto motivado a contribuir.
E por serem encontros entre diferentes famílias, gerações e momentos e como ficarão gravados para a posteridade. Nesses encontros eu sou o “Mestre Pereira” - “Parece que o Mestre Pereira está com a mão levantada e quer contribuir. Boa noite Mestre Pereira, você quer falar, fica a vontade!” - Essa é uma fala corriqueira do Si Gung Leo Imamura. Eu as vezes escuto esse “Mestre Pereira”, e penso: “Poxa vida... Meus heróis de infância tinham uns nomes tão legais: Joe Armstrong [American Ninja], Frank Dux [Bloodsport], Tommy Lee [Best of The Best], Jake Donahue[King of Kickboxers] e eu sou o 'Mestre Pereira'...” -  Porém, apesar de uma aparente formalidade quando sou chamado de “Mestre Pereira”, algumas coisas mais sérias passam pela minha cabeça: Uma delas, é que independente da diferença de gerações, nesses ambientes existe esse título que compartilho com outros, e que necessita trabalho duro para alcançar.  Porém, mais do que a dedicação, lembro do voto de confiança que é dado, quando esse título é obtido. O voto de confiança, de que o “Mestre”, seja ele o “Mestre Pereira” ou algum outro com um nome mais radical, vai se dedicar para continuar estudando e se aprimorando continuamente... E esse é um desafio bem legal. 

Last night, Si Gung talked about how happy he was to be able to live that moment with us. According to him, this was a scenario he had visualized his entire career, and which many said was impossible.
However, what most calls my attention in this whole process since the beginning of the year, is the feeling of acceptance. I heard my Si Taai Vanise Almeida talk about hospitality for the first time, perhaps in 2012 during an Official Visit promoted by the Copacabana School. At the time, it was not my time to make use of this concept. This year, I started talking about it more. I think it has been a very special process, because in this group with so many people from different backgrounds, the impression it gives is that your knowledge matters. As childish or basic as something I think about asking or sharing might seem to me at first. I feel motivated to contribute.
And because those are meetings between different families, generations and moments and how they will be recorded for posterity. In these meetings People calls me “Master Pereira” - “It seems that Master Pereira has his hand up and wants to contribute. Good evening Master Pereira, if you want to talk, feel free!” - This is a common speech of Si Gung Leo Imamura. I sometimes listen to this “Master Pereira”, and I think: “Oh man... My childhood heroes had such cool names: Joe Armstrong [American Ninja], Frank Dux [Bloodsport], Tommy Lee [Best of The Best ], Jake Donahue [King of Kickboxers] and I am 'Master Pereira'...” - However, despite an apparent formality when I am called “Master Pereira”, some more serious things cross my mind: One of them, is that regardless of the generation gap, in these environments there is this title that I share with others, and that needs hard work to achieve. However, more than the dedication, I remember the vote of confidence that is given when this title is obtained. The vote of confidence, that the “master”, be he “Master Pereira”, or someone with a more radical name... Will dedicate himself to continue studying and improving himself continuously... And this is a very special challenge.

A Disciple of Master Julio Camacho
Thiago Pereira "Moy Fat Lei"
moyfatlei.myvt@gmail.com


 


 
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terça-feira, 25 de outubro de 2022

23 unbroken years in the Kung Fu Family

 

[Da esq. p/ dir. - Meu Si Fu, meu Si Gung e eu].
[From left to right - My Si Fu, my Si Gung and I].

Se um compromisso foi marcado em determinado horário, eu chego pelo menos meia hora antes no Mo Gun para organizar tudo, antes que o compromisso se inicie. Desde uma rápida limpeza necessária, até mesmo desconectar do compromisso anterior e sintonizar com o seguinte, são coisas que faço nesse tempo. Porém, as vezes eu chego no Mo Gun e mesmo tendo marcado com alguns To Dai, alguns acabam chegando já na hora da atividade. Então muitas vezes na frente do praticante que está começando, me vejo obrigado a dar as orientações do que será trabalhado para o To Dai que acabara de chegar. O que talvez esse To Dai não perceba, é que esse tipo de atitude, vai enfraquecer sua própria liderança com relação a essa pessoa. Pois, mesmo já estando mais amadurecido e preparado, qual a “assinatura” que ele deixou previamente nessa relação? 
Em momentos assim, penso não estar fazendo um bom trabalho como Si Fu. Lembro das vezes em que meu Si Fu falou sobre precisão relacionado ao horário de chegada comigo ao longo dos anos. E fico refletindo, se conseguirei fazer o mesmo trabalho com a geração seguinte. 
O dia 05 de cada mês, chega sempre misteriosamente rápido demais, e é o momento novamente de pagar o aluguel. Tem três meses que pago com PIX, mas antes disso eu costumava pegar uma folha de cheque, meu walkman e ir andando todo o caminho até a imobiliária do outro lado do Méier. Com isso, me era possível passar por alguns pontos marco no bairro, para minha carreira. Muitas memórias a respeito de momentos de vida e de pessoas, me vem a mente nessas caminhadas. Porém, vem muitas lembranças da vontade de vencer que era muito presente no início. E quando chego a imobiliária, mesmo num dia ruim ou em um mês difícil, esse resgate de memórias me ajudam a preencher e assinar o cheque com a energia certa. E mesmo tendo acabado de investir uma quantia considerável por mais um mês no imóvel onde está situado meu Mo Gun. Bebo meu espresso no Café Zoro feliz. Sabe, um dia voce está ali, sem conseguir fazer o acerto da sua própria prática. E no outro, você acaba desenvolvendo um gosto especial pela aventura de mensalmente, não saber exatamente como o mês vai fechar... É algo estranho. Me pergunto se algum To Dai topará esse desafio no futuro, e bebo mais um gole de espresso. 

If an appointment is scheduled at a certain time, I arrive at the Mo Gun at least half an hour early to organize everything, before the appointment starts. From a quick necessary cleanse, to even disconnecting from the previous appointment and tuning in to the next one, these are things I do in this time. However, sometimes I arrive at the Mo Gun and even though I have booked with some To Dai, some end up arriving just in time for the activity. So many times in front of the practitioner who is starting, I find myself obliged to give the guidelines of what will be worked on for the To Dai that had just arrived. What this To Dai may not realize is that this kind of attitude will weaken his own leadership towards that person. Because, even though he will be more mature and prepared in the future, what was the “signature” that he previously left in this relationship?
At a time like this, I don't think I'm doing a good job as a Si Fu. I remember the times when Si Fu talked about accuracy related to arrival time with me over the years. And I wonder if I can do the same job with the next generation.
The 5th day of each month always arrives mysteriously too fast, and it's time to pay the rent again. I've been paying directing in the bank account for three months, but before that I used to take a check sheet, my Walkman and walk all the way to the real estate office on the other side of Méier wild neighborhood. With that, it was possible for me to go through some landmark points in the neighborhood, for my career. Many memories about moments of life and people come to mind on these walks. However, there are many memories of the will to win that was very present in the beginning. And when I arrive at the real estate office, even on a bad day or a difficult month, these memories help me to write and sign the check with the right energy. And even though I have just invested a considerable amount for another month, in the property where my Mo Gun is located, I drink my espresso at Café Zoro very happy. You know, one day you're there, struggling to pay your fees to your Si Fu. And on the other, you end up developing a special taste for the adventure of monthly, not knowing exactly how the month is going to end... It's something strange. I wonder if any To Dai will be up to this challenge in the future, and I take another sip of espresso.


[O dia em que entrei na Família Kung Fu. Si Suk Ursula me observa]
[The day I joined the Kung Fu Family. Si Suk Ursula watches me]

Por muitas vezes, fico um pouco mais no Mo Gun além dos díscipulos quando acaba o jantar ou as atividades - “O senhor ainda vai ficar mais, Si Fu?” - É uma pergunta que escuto muito. Gosto de ser o último a sair e a fechar a porta. Pois assim como quando chego mais cedo do que o compromisso marcado, gosto de sentar no meu lugar preferido e pensar sobre o dia. Em alguns momentos, me sinto um maestro, pois em várias oportunidades, cada To Dai parece um músico de uma orquestra. Você precisa estar atento para perceber a desafinação do instrumento de um To Dai, para poder ajudá-lo a se antecipar a um processo que possa prejudicá-lo antes mesmo que ele perceba. O desejo de parar e afinar o instrumento e retomar depois, ou de continuar tocando ainda que desafinado, até ter a chance de acertar sempre será da pessoa. E por causa disso, por vezes me perguntei se isso só era possível por ter um Mo Gun e não vários. E após muito refletir, descobri que prefiro desse jeito mesmo. É melhor ter a quantidade de alunos que eu sinta a possibilidade de monitoramento. Eu tive uma chance única dada pelo meu Si Fu e outras pessoas que cuidaram da minha jornada. Gostaria de dar essa oportunidade a uma nova geração também. Ou apenas imaginar que sou capaz disso.

Many times, I stay a little longer in the Mo Gun besides the disciples - “Are you still going to stay longer, Si Fu?” - It's a question I hear a lot. I like to be the last to leave and close the door. Because just like when I arrive earlier than the appointment, I like to sit in my favorite spot and think about the day. At times, I feel like a maestro of an orchestra, because at times, each To Dai looks like a musician in an orchestra. You need to be attentive to notice the out of tune of a To Dai instrument, so you can help him anticipate a process that could harm him before he even realizes it. The desire to stop and tune the instrument and resume later, or to continue playing even if out of tune, until having the chance to get it right will always belong to the person.  And because of that, I sometimes wondered if this was only possible by having one Mo Gun and not several. And after much reflection, I found that I prefer it that way. It's better to have as many students as I feel the possibility of monitoring. I had a unique chance given by my Si Fu and other people who took care of my journey. I would like to give this opportunity to a new generation as well.Or just imagine that I'm capable of it.
[Com Si fu em 25 de Outubro de 1999]
[With Si fu in October 25, 1999]

Quando voce se torna Si Fu, vão haver muitos desafios relacionados a relação com os To Dai. Voce vai dar o seu máximo, e o To Dai não vai perceber ou valorizar. Porém, muitas vezes um To Dai vai fazer o melhor que pode, e você também não vai perceber. Por isso, o Baai Si é tão importante. Uma relação vitalícia, permite que momentos bons ou ruins, sejam recortes de um todo. Porém, é muito comum antes dos primeiros dez anos de uma Família Kung Fu, mesmo seus To Dai mais antigos, concordarem com tudo que você propõe. Eu sempre fiquei atento a maneira com a qual eu transmito o Ving Tsun. Meu acesso ao Ving Tsun, se deu através de meu Si Fu diretamente ou indiretamente através de Si Suk, que praticaram sob sua tutela. Eles eram os melhores! E naqueles tempos de altas aventuras, mesmo tendo dificuldade de entender como o Chi Sau me ajudaria a me tornar um lutador, eu respeitava a transmissão daquelas pessoas. E eu quero que respeitem a minha também. Por isso, sempre procuro me dedicar a melhorar minha capacidade de transmissão. Costumo falar para meus alunos, que qualquer pessoa que atravessa a porta de nosso Mo Gun, é um mestre em potencial. Aprendi isso com meu Si Fu. E cabe a mim, estar preparado para acolher essa pessoa da melhor maneira possível. Acontece que quando você pensa que fez um excelente trabalho, ainda assim você não conseguiu conectar com a pessoa. Quando você estava no seu pior dia, a pessoa adorou a aula. E junto disso tudo, tem o próprio dever de compartilhar essa mentalidade com meus alunos. Acho que essas coisas, não estão no nosso controle. Mas eu gosto de imaginar que estejam. Por isso, quando estou com um aluno, eu lembro que represento quatrocentos anos de uma Linhagem ininterrupta. E ali só vai caber 100% do que eu tiver para dar. 

When you become Si Fu, there will be many challenges related to the relationship with the To Dai. You will do your best, and the To Dai will not notice or appreciate it. However, many times a To Dai will do the best he can, and you won't notice either. That's why Baai Si is so important. A lifelong relationship allows good or bad moments to be clippings of a whole. However, it is very common before the first ten years of a Kung Fu Family, even your oldest To Dai, to agree with everything you propose. I have always been attentive to the way in which I transmit Ving Tsun. My access to Ving Tsun was through my Si Fu directly or indirectly through Si Suk, who practiced under his tutelage. They were the best! And in those days of high adventure, even though I had difficulty understanding how Chi Sau would help me become a fighter, I respected the transmission of those people. And I want you to respect mine too. Therefore, I always try to dedicate myself to improving my transmission capacity. I often tell my students that anyone who walks through the door of our Mo Gun is a potential master. I learned this from my Si Fu. And it's up to me to be prepared to welcome that person in the best possible way. It turns out that when you think you've done a great job, you still haven't been able to connect with the person. When you were having your worst day, the person loved the class. And along with all that, it's my duty to share that mindset with my students. I think these things are out of our control. But I like to imagine they are. So when I'm with a student, I remember that I represent four hundred years of an unbroken Lineage. And only 100% of what I have to give will fit there.


Um dia eu liguei para o Si Fu. Era o ano de 2011. Eu estava passando muito mal e não conseguia sair da cama. Era o dia mais cheio do recém aberto Núcleo Méier. Perguntei o que deveria fazer. Ele fez algumas considerações, e eu entrei em contato com cada praticante perguntando se poderíamos trocar as atividades daquela Quarta para a Quinta. Lembro de falar com o Fabio Sá, e ele não entender bem a ligação, eu realmente estava envergonhado de ter que remarcar. Então cada uma das atividades, foram remanejadas para Quinta. No dia seguinte, eu estava completamente recuperado. 
Aquela, foi a minha primeira grande experiência de transformação como profissional. - Eu posso até ficar doente, todo mundo fica, mas não por muito tempo. Tem muito trabalho a ser feito. - “Será que um dia algum To Dai vai compartilhar desse pensamento também?”- Eu penso.  Afinal, esse é o resultado do que aprendi, em 23 anos ininterruptos na Família Kung Fu com meu Si Fu. Eu nunca desisti. 

One day I called Si Fu on the phone. It was the year 2011. I was feeling very sick and couldn't get out of bed. It was the busiest day at the newly opened MYVT Méier School. I asked what I should do. He made some considerations, and I contacted each practitioner asking if we could switch activities from Wednesday to Thursday. I remember talking to Fabio Sá, and he didn't understand the call well, I was really embarrassed to have to reschedule. Then each of the activities were relocated to Thursday. The next day, I was completely recovered.
That was my first big transformation experience as a professional. - I can even get sick, everyone does, but not for long. There's a lot of work to be done. - “Will one day some To Dai share this thought too?”- I think sometimes . After all, this is the result of what I learned, in 23 uninterrupted years in the Kung Fu Family with my Si fy. I never gave up.

A Disciple of Master Julio Camacho
Thiago Pereira "Moy Fat Lei"
moyfatlei.myvt@gmail.com