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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

An essay on my fear of the “Baat Jaam Do”


[Meu par de facas feito pelo Mestre Leandro Godoy] 
[My pair of knives made by Master Leandro Godoy]

Acessei o Domínio “Baat Jaam Do” em Julho de 2008. Era o último Domínio do Sistema Ving Tsun. Chamamos de “Domínio” porque corresponde a um território dentro do Sistema Ving Tsun, no qual certas características dos 'gestos'[Numa tradução rasteira para jiu sik 招式] presentes, são enfatizadas. Esse acesso se deu a 14 anos atrás... Eu tinha 24 anos de idade, estava em um momento em que a vida me obrigava a amadurecer e eu resistia bravamente. O “Baat Jaam Do” chegou bem nessa hora... E eu que sempre tratei o Sistema Ving Tsun como algo que poderia ser resolvido com força de vontade, comecei a duras penas, a perceber que não era nada disso... 
Por questões de saúde, eu sempre pratico o Siu Nim Tau[1º Domínio do Sistema]. Por prazer, eu tenho o Luk Dim Bun Gwan [Domínio em que se usa o bastão] como meu favorito. Porém , aquele que é o mais desafiador e amargo para mim, sem dúvidas é o “Baat Jaam Do”.

I accessed the “Baat Jaam Do” Domain in July 2008. It was the last Domain of the Ving Tsun System. We call it “Domain” because it corresponds to a territory within the Ving Tsun System, in which certain characteristics of the 'gestures' [A rough translation to jiu sik 招式] present are emphasized. This access took place 14 years ago... I was 24 years old, I was at a time when life forced me to mature and I was bravely resisting. The “Baat Jaam Do” arrived right at that time... And I, who always treated the Ving Tsun System as something that could be solved with willpower, began to struggle, realizing that it was nothing like that...
For health reasons, I always practice Siu Nim Tau [1st Domain of the System]. For pleasure, I have Luk Dim Bun Gwan [Domain in which the staff is used] as my favorite. However, the one that is the most challenging and bitter for me, without a doubt, is the “Baat Jaam Do”.

Então, tem alguns anos que eu encomendei meu par de facas com o Mestre Leandro Godoy da Argentina. Ele é um artista, e o resultado é possível observar na foto acima. Eu visualizei meu par de facas desde 2006, devido a um seriado que assistia quando chegava da faculdade. O formato não saiu como pensei, mas sabia que teria a lamina negra e o cabo de madeira. Apesar disso, não estava muito animado para fazer, e apenas por insistência de meu Si Fu eu encomendei. Quando recebi o par de facas, deixei guardado por mais de um ano. Não cheguei a tirar da bainha. Segui praticando com as facas de nylon e a de metal, que encomendei de Foshan em 2009. 

So, it's been a few years since I ordered my pair of knives from Master Leandro Godoy from Argentina. He is an artist, and the result can be seen in the photo above. I've visualized my pair of knives since 2006, due to a show I watched when I got home from college. The shape didn't turn out as I thought, but I knew it would have a black blade and a wooden handle. Despite that, I wasn't very excited to do it, and only at the insistence of my Si Fu I ordered it. When I received the pair of knives, I kept them for over a year. I didn't get it out of the sheath. I continued practicing with the nylon and metal knives, which I ordered from Foshan in 2009.
[Moy Fat Lei” vai na lamina]
[Moy Fat Lei” on the blade]

Finalmente eu peguei as facas feitas pelo Mestre Leandro, meu Si Suk, para praticar. Ao segurá-las, apenas pela qualidade das facas, pude entender muito do que o Si Fu me chamou a atenção por anos... Coisas que com um par de facas de nylon ou de má qualidade, precisam muito da participaçãodo  praticante. Quando na verdade, esse par tão bem feito pelo Si Suk Leandro, já porta diversos potenciais nele mesmo... E com tantas qualidades intrínsecas, eu costumo me perguntar :“Ei cara, por que você está triste?” - Sempre que pratico com este par de facas. 
Nessas horas, muitos sentimentos vem a tona. Um deles, é a noção de que mesmo sabendo que em termos de estratégia, a “coragem” e o “medo” são circunstanciais. Me percebo mais “medroso” do que gostaria na maior parte do tempo... 
Essas facas são tão bem feitas, que elas quase que autorregulam  o que eu faço. É como se você soubesse que deveria colocar determinada energia no movimento... Mas na hora você vê que mesmo sabendo que deve e querendo, não pode. Porque seu corpo não acompanha o raciocínio e você pode se machucar. Em outros momentos, seu corpo acompanha, mas você não está tão confiante. Isso acontece, quando percebo a quantidade de vezes que ainda aponto a faca para mim mesmo. Sendo esta uma faca com uma energia diferente das que eu estava acostumado, incomoda imediatamente tê-las em minha direção. Então diminuo a velocidade, e percebo que uma necessidade de controle nesse momento aflora[Daai Nim Tau 大念頭], e faz com que eu saia da natureza proposto por esse Domínio. 

Finally I took the knives made by Master Leandro, my Si Suk, to practice. By holding them, just for the quality of the knives, I could understand a lot of what Si Fu called my attention for years... Things that with a pair of nylon knives or of poor quality, need a lot of the practitioner's participation. When in fact, this pair so well made by Si Suk Leandro, already has several potentials in it... And with so many intrinsic qualities, I usually ask myself: "Hey man, why are you sad?" - Whenever I practice with this pair of knives.
At these times, many feelings come to the surface. One of them is the notion that even knowing that in terms of strategy, “courage” and “fear” are circumstantial. I feel more “fearful” than I would like most of the time...
These knives are so well made, they almost self-regulate what I do. It's as if you knew that you should put certain energy into the movement... But at the time you see that even though you know you should and you want to, you can't. Because your body doesn't follow the reasoning and you can get hurt. At other times, your body follows suit, but you're not as confident. This happens when I realize how many times I still point the knife at myself. This being a knife with a different energy than what I was used to, it immediately bothers me to have them in my direction. So I slow down, and I realize that a need for control arises at that moment [Daai Nim Tau 大念頭], and makes me leave the nature proposed by this Domain.


[Costumo gravar minhas práticas para assistir depois. 
As vezes só as mãos, as vezes só os pés, as vezes o tronco...as vezes todos].

[I often record my practices to watch later.
Sometimes just the hands, sometimes just the feet, sometimes the torso... sometimes all].


Tem um cantinho do Mo Gun que gosto de sentar[foto]. Quando pratico sozinho, nas pausas fico sentado ali. Quando me dediquei com mais afinco ao “Luk Dim Bun Gwan” em 2020, eu me sentava ali e mal podia esperar para recuperar o folego e começar novamente. Agora já não é mais assim... O “Baat Jaam Do” me mostra de tantas formas diferentes, todos os excessos que o meu Kung Fu ainda promove, que quando me sento ali sempre penso nos momentos em que fiz isso também na minha vida pessoal. Não penso só nos excessos, mas penso também quando agi abaixo do que deveria, por falta de confiança. E recentemente, isso me lembra um dos episódios de um canal de youtube que acompanho do Sensei Arakaki. O título indaga: “E quando a flecha lançada volta?” - Esse título faz referencia ao adágio de que a flecha lançada não volta, assim como a palavra dita. Mas volta sim... E volta forte. 
Quando comecei a pensar mais sério na tatuagem que fiz nas costas, meu Si Fu me alertou para não dar muita ênfase a um único animal. Segundo ele, enfatizar uma única natureza não traz bom equilíbrio - :“Por isso tenho três naturezas bem distintas em minhas tatuagens” - Disse ele. Por isso, acredito que eu faça mais tatuagens no futuro...  Sobre o “Baat Jaam Do”, sua natureza me pede um refinamento de maneira muito visceral...  E me traz a reflexão sobre as trapalhadas que fiz por falta deste mesmo refinamento em situações do dia a dia ao longo dos anos. E além disso, um par de facas que quase tem vida própria, me desafiam cada vez mais. Afinal, quem quer lidar com os próprios pontos a melhorar? 
Mas eu sei que cada vez que as tiro da bainha, tem muito de compromisso e Kung Fu. Se não fosse o Kung Fu que aprendi com meu Si Fu, não mexeria nelas. Porque na maioria das vezes, não se trata de um par de facas, mas de um espelho. 

There is a corner of the Mo Gun that I like to sit in [photo]. When I practice alone, during breaks I just sit there. When I put my heart into “Luk Dim Bun Gwan” in 2020, I would sit there and couldn't wait to catch my breath and start again. Now it's not like that anymore... The “Baat Jaam Do” shows me in so many different ways, all the excesses that my Kung Fu still promotes, that when I sit there I always think about the moments when I did that too in my daily life . I don't just think about excesses, but I also think about when I acted below what I should, due to lack of confidence. And recently, this reminds me of one of the episodes of a youtube channel that I follow by Sensei Arakaki. The title asks: “And when does the arrow that is shot return?” - This title refers to the adage that the arrow launched does not return, as well as the spoken word. But it does come back... And it comes back strong.
When I started to think more seriously about the tattoo I did on my back, my Si Fu warned me not to give too much emphasis to a single animal. According to him, emphasizing a single nature does not bring a good balance - :"That's why I have three very different natures in my tattoos" - He said. That's why I believe I'll get more tattoos in the future... About the “Baat Jaam Do”, its nature asks me for a refinement in a very visceral way... And it brings me to the reflection on the mess I made for lack of this same refinement in everyday situations over the years. And on top of that, a pair of knives that almost have a life of its own, challenge me more and more. After all, who wants to deal with their own points to improve?
But I know that every time I take them out of the sheath, there's a lot of commitment and Kung Fu. If it wasn't for the Kung Fu I learned from my Si Fu, I wouldn't touch them. Because most of the time, it's not a pair of knives, but a mirror.



The Disciple of Master Julio Camacho
Thiago Pereira 'Moy Fat Lei'
moyfatlei.myvt@gmail.com