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terça-feira, 25 de outubro de 2022

23 unbroken years in the Kung Fu Family

 

[Da esq. p/ dir. - Meu Si Fu, meu Si Gung e eu].
[From left to right - My Si Fu, my Si Gung and I].

Se um compromisso foi marcado em determinado horário, eu chego pelo menos meia hora antes no Mo Gun para organizar tudo, antes que o compromisso se inicie. Desde uma rápida limpeza necessária, até mesmo desconectar do compromisso anterior e sintonizar com o seguinte, são coisas que faço nesse tempo. Porém, as vezes eu chego no Mo Gun e mesmo tendo marcado com alguns To Dai, alguns acabam chegando já na hora da atividade. Então muitas vezes na frente do praticante que está começando, me vejo obrigado a dar as orientações do que será trabalhado para o To Dai que acabara de chegar. O que talvez esse To Dai não perceba, é que esse tipo de atitude, vai enfraquecer sua própria liderança com relação a essa pessoa. Pois, mesmo já estando mais amadurecido e preparado, qual a “assinatura” que ele deixou previamente nessa relação? 
Em momentos assim, penso não estar fazendo um bom trabalho como Si Fu. Lembro das vezes em que meu Si Fu falou sobre precisão relacionado ao horário de chegada comigo ao longo dos anos. E fico refletindo, se conseguirei fazer o mesmo trabalho com a geração seguinte. 
O dia 05 de cada mês, chega sempre misteriosamente rápido demais, e é o momento novamente de pagar o aluguel. Tem três meses que pago com PIX, mas antes disso eu costumava pegar uma folha de cheque, meu walkman e ir andando todo o caminho até a imobiliária do outro lado do Méier. Com isso, me era possível passar por alguns pontos marco no bairro, para minha carreira. Muitas memórias a respeito de momentos de vida e de pessoas, me vem a mente nessas caminhadas. Porém, vem muitas lembranças da vontade de vencer que era muito presente no início. E quando chego a imobiliária, mesmo num dia ruim ou em um mês difícil, esse resgate de memórias me ajudam a preencher e assinar o cheque com a energia certa. E mesmo tendo acabado de investir uma quantia considerável por mais um mês no imóvel onde está situado meu Mo Gun. Bebo meu espresso no Café Zoro feliz. Sabe, um dia voce está ali, sem conseguir fazer o acerto da sua própria prática. E no outro, você acaba desenvolvendo um gosto especial pela aventura de mensalmente, não saber exatamente como o mês vai fechar... É algo estranho. Me pergunto se algum To Dai topará esse desafio no futuro, e bebo mais um gole de espresso. 

If an appointment is scheduled at a certain time, I arrive at the Mo Gun at least half an hour early to organize everything, before the appointment starts. From a quick necessary cleanse, to even disconnecting from the previous appointment and tuning in to the next one, these are things I do in this time. However, sometimes I arrive at the Mo Gun and even though I have booked with some To Dai, some end up arriving just in time for the activity. So many times in front of the practitioner who is starting, I find myself obliged to give the guidelines of what will be worked on for the To Dai that had just arrived. What this To Dai may not realize is that this kind of attitude will weaken his own leadership towards that person. Because, even though he will be more mature and prepared in the future, what was the “signature” that he previously left in this relationship?
At a time like this, I don't think I'm doing a good job as a Si Fu. I remember the times when Si Fu talked about accuracy related to arrival time with me over the years. And I wonder if I can do the same job with the next generation.
The 5th day of each month always arrives mysteriously too fast, and it's time to pay the rent again. I've been paying directing in the bank account for three months, but before that I used to take a check sheet, my Walkman and walk all the way to the real estate office on the other side of Méier wild neighborhood. With that, it was possible for me to go through some landmark points in the neighborhood, for my career. Many memories about moments of life and people come to mind on these walks. However, there are many memories of the will to win that was very present in the beginning. And when I arrive at the real estate office, even on a bad day or a difficult month, these memories help me to write and sign the check with the right energy. And even though I have just invested a considerable amount for another month, in the property where my Mo Gun is located, I drink my espresso at Café Zoro very happy. You know, one day you're there, struggling to pay your fees to your Si Fu. And on the other, you end up developing a special taste for the adventure of monthly, not knowing exactly how the month is going to end... It's something strange. I wonder if any To Dai will be up to this challenge in the future, and I take another sip of espresso.


[O dia em que entrei na Família Kung Fu. Si Suk Ursula me observa]
[The day I joined the Kung Fu Family. Si Suk Ursula watches me]

Por muitas vezes, fico um pouco mais no Mo Gun além dos díscipulos quando acaba o jantar ou as atividades - “O senhor ainda vai ficar mais, Si Fu?” - É uma pergunta que escuto muito. Gosto de ser o último a sair e a fechar a porta. Pois assim como quando chego mais cedo do que o compromisso marcado, gosto de sentar no meu lugar preferido e pensar sobre o dia. Em alguns momentos, me sinto um maestro, pois em várias oportunidades, cada To Dai parece um músico de uma orquestra. Você precisa estar atento para perceber a desafinação do instrumento de um To Dai, para poder ajudá-lo a se antecipar a um processo que possa prejudicá-lo antes mesmo que ele perceba. O desejo de parar e afinar o instrumento e retomar depois, ou de continuar tocando ainda que desafinado, até ter a chance de acertar sempre será da pessoa. E por causa disso, por vezes me perguntei se isso só era possível por ter um Mo Gun e não vários. E após muito refletir, descobri que prefiro desse jeito mesmo. É melhor ter a quantidade de alunos que eu sinta a possibilidade de monitoramento. Eu tive uma chance única dada pelo meu Si Fu e outras pessoas que cuidaram da minha jornada. Gostaria de dar essa oportunidade a uma nova geração também. Ou apenas imaginar que sou capaz disso.

Many times, I stay a little longer in the Mo Gun besides the disciples - “Are you still going to stay longer, Si Fu?” - It's a question I hear a lot. I like to be the last to leave and close the door. Because just like when I arrive earlier than the appointment, I like to sit in my favorite spot and think about the day. At times, I feel like a maestro of an orchestra, because at times, each To Dai looks like a musician in an orchestra. You need to be attentive to notice the out of tune of a To Dai instrument, so you can help him anticipate a process that could harm him before he even realizes it. The desire to stop and tune the instrument and resume later, or to continue playing even if out of tune, until having the chance to get it right will always belong to the person.  And because of that, I sometimes wondered if this was only possible by having one Mo Gun and not several. And after much reflection, I found that I prefer it that way. It's better to have as many students as I feel the possibility of monitoring. I had a unique chance given by my Si Fu and other people who took care of my journey. I would like to give this opportunity to a new generation as well.Or just imagine that I'm capable of it.
[Com Si fu em 25 de Outubro de 1999]
[With Si fu in October 25, 1999]

Quando voce se torna Si Fu, vão haver muitos desafios relacionados a relação com os To Dai. Voce vai dar o seu máximo, e o To Dai não vai perceber ou valorizar. Porém, muitas vezes um To Dai vai fazer o melhor que pode, e você também não vai perceber. Por isso, o Baai Si é tão importante. Uma relação vitalícia, permite que momentos bons ou ruins, sejam recortes de um todo. Porém, é muito comum antes dos primeiros dez anos de uma Família Kung Fu, mesmo seus To Dai mais antigos, concordarem com tudo que você propõe. Eu sempre fiquei atento a maneira com a qual eu transmito o Ving Tsun. Meu acesso ao Ving Tsun, se deu através de meu Si Fu diretamente ou indiretamente através de Si Suk, que praticaram sob sua tutela. Eles eram os melhores! E naqueles tempos de altas aventuras, mesmo tendo dificuldade de entender como o Chi Sau me ajudaria a me tornar um lutador, eu respeitava a transmissão daquelas pessoas. E eu quero que respeitem a minha também. Por isso, sempre procuro me dedicar a melhorar minha capacidade de transmissão. Costumo falar para meus alunos, que qualquer pessoa que atravessa a porta de nosso Mo Gun, é um mestre em potencial. Aprendi isso com meu Si Fu. E cabe a mim, estar preparado para acolher essa pessoa da melhor maneira possível. Acontece que quando você pensa que fez um excelente trabalho, ainda assim você não conseguiu conectar com a pessoa. Quando você estava no seu pior dia, a pessoa adorou a aula. E junto disso tudo, tem o próprio dever de compartilhar essa mentalidade com meus alunos. Acho que essas coisas, não estão no nosso controle. Mas eu gosto de imaginar que estejam. Por isso, quando estou com um aluno, eu lembro que represento quatrocentos anos de uma Linhagem ininterrupta. E ali só vai caber 100% do que eu tiver para dar. 

When you become Si Fu, there will be many challenges related to the relationship with the To Dai. You will do your best, and the To Dai will not notice or appreciate it. However, many times a To Dai will do the best he can, and you won't notice either. That's why Baai Si is so important. A lifelong relationship allows good or bad moments to be clippings of a whole. However, it is very common before the first ten years of a Kung Fu Family, even your oldest To Dai, to agree with everything you propose. I have always been attentive to the way in which I transmit Ving Tsun. My access to Ving Tsun was through my Si Fu directly or indirectly through Si Suk, who practiced under his tutelage. They were the best! And in those days of high adventure, even though I had difficulty understanding how Chi Sau would help me become a fighter, I respected the transmission of those people. And I want you to respect mine too. Therefore, I always try to dedicate myself to improving my transmission capacity. I often tell my students that anyone who walks through the door of our Mo Gun is a potential master. I learned this from my Si Fu. And it's up to me to be prepared to welcome that person in the best possible way. It turns out that when you think you've done a great job, you still haven't been able to connect with the person. When you were having your worst day, the person loved the class. And along with all that, it's my duty to share that mindset with my students. I think these things are out of our control. But I like to imagine they are. So when I'm with a student, I remember that I represent four hundred years of an unbroken Lineage. And only 100% of what I have to give will fit there.


Um dia eu liguei para o Si Fu. Era o ano de 2011. Eu estava passando muito mal e não conseguia sair da cama. Era o dia mais cheio do recém aberto Núcleo Méier. Perguntei o que deveria fazer. Ele fez algumas considerações, e eu entrei em contato com cada praticante perguntando se poderíamos trocar as atividades daquela Quarta para a Quinta. Lembro de falar com o Fabio Sá, e ele não entender bem a ligação, eu realmente estava envergonhado de ter que remarcar. Então cada uma das atividades, foram remanejadas para Quinta. No dia seguinte, eu estava completamente recuperado. 
Aquela, foi a minha primeira grande experiência de transformação como profissional. - Eu posso até ficar doente, todo mundo fica, mas não por muito tempo. Tem muito trabalho a ser feito. - “Será que um dia algum To Dai vai compartilhar desse pensamento também?”- Eu penso.  Afinal, esse é o resultado do que aprendi, em 23 anos ininterruptos na Família Kung Fu com meu Si Fu. Eu nunca desisti. 

One day I called Si Fu on the phone. It was the year 2011. I was feeling very sick and couldn't get out of bed. It was the busiest day at the newly opened MYVT Méier School. I asked what I should do. He made some considerations, and I contacted each practitioner asking if we could switch activities from Wednesday to Thursday. I remember talking to Fabio Sá, and he didn't understand the call well, I was really embarrassed to have to reschedule. Then each of the activities were relocated to Thursday. The next day, I was completely recovered.
That was my first big transformation experience as a professional. - I can even get sick, everyone does, but not for long. There's a lot of work to be done. - “Will one day some To Dai share this thought too?”- I think sometimes . After all, this is the result of what I learned, in 23 uninterrupted years in the Kung Fu Family with my Si fy. I never gave up.

A Disciple of Master Julio Camacho
Thiago Pereira "Moy Fat Lei"
moyfatlei.myvt@gmail.com