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segunda-feira, 14 de novembro de 2022

MOY FAT LEI FAMILY´S NEW DISCIPLE

A Familia Kung Fu se reuniu mais uma vez em nosso querido restaurante Chinatown na cidade do Rio de Janeiro, para formalizar a condição de Daniel Eustáquio como membro vitalício em minha Família Kung Fu. Além dos membros da minha Família, representantes de outros Clãs e Famílias Kung Fu do Rio de Janeiro, também se fizeram presentes. E ao adentrar o segundo andar do restaurante naquela manhã, e perceber todos que estavam lá além dos que chegavam aos poucos, sabia que devido a problemas de transito em nossa cidade e de dificuldades com agenda, houve um esforço real de cada um que ali estava. E me senti muito grato por todas as aquelas pessoas presentes. Eu tinha o costume de tentar deixar de fora as pessoas que não confirmavam sua participação até a data estabelecida nos eventos da Família Moy Jo Lei Ou. Sobre isso, meu Si Fu dizia - “Thiago, sem as pessoas, nada faz sentido.” - E ele estava certo. 

The Kung Fu Family gathered once again in our beloved restaurant Chinatown in the city of Rio de Janeiro, to formalize Daniel Eustáquio's status as a special student of my Kung Fu Family. In addition to my Family members, representatives of other Kung Fu Clans and Families from Rio de Janeiro were also present. And when entering the second floor of the restaurant that morning, and realizing everyone who was there besides those who arrived little by little, I knew that due to traffic problems in our city and difficulties with the schedule, there was a real effort from everyone who was there. . And I felt very grateful for all those people present. I used to try to leave out people who did not confirm their participation until the deadline established in the events of the Moy Jo Lei Ou Family. About this, my Si Fu used to say to me - “Thiago, without people, nothing makes sense.” - And he was right.

Quando a Cerimonia de “Baai Si” começa com a “Abertura Cerimonial”, que na ocasião foi lida pelo meu discípulo Keith Markus. Sempre observo meu Si Fu sorrindo, olhando ao redor, e por vezes mandando uma piscadela para alguém que não lhe foi possível cumprimentar quando chegou. Eu ainda não consegui atingir esse nível, preciso me concentrar no que dizer para ajudar a dar mais peso ainda ao potencial simbólico que este instrumento carrega nele próprio. Ou talvez eu só seja alguém de cara fechada mesmo... De toda forma, essa era a sétima cerimonia de minha Família Kung Fu, a receber um novo discípulo. São sete anos de Família, uma média de uma cerimonia de discipulado por ano. Nesse tempo, alguns discípulos se afastaram, outros se foram para sempre, alguns retornaram e outros sempre permaneceram. Porém, eu sempre estive lá. O Si Fu costuma dizer que a pessoa precisa se sentir tranquila para se afastar quando quiser, e para retornar também. Por ser o compromisso de uma vida toda, você precisa estar inteiro e com o coração aberto para todas essas idas e vindas. Porém, elas não simples. E naquele exato momento, por mais criativo que fosse, não conseguia nem de perto imaginar o que está por vir na minha relação com Daniel Eustáquio.  Uma relação que não tem paralelos no ocidente, mas que após 23 anos na Família Kung Fu, aprendi o quão recompensadora e desafiante ela pode ser. 

When a “Baai Si” Ceremony begins with the “Ceremonial Opening Text Reading”, which at the time was read by my disciple Keith Markus. I always observe my Si Fu smiling, looking around, and sometimes sending a wink to someone who was unable to greet him when he arrived. I still haven't managed to reach that level, I need to concentrate on what to say to help give even more weight to the symbolic potential that this instrument carries within itself. Or maybe I'm just someone with a not friendly face anyway... Anyway, this was the seventh ceremony of my Kung Fu Family, to receive a new disciple. There are seven years of the Family, an average of one discipleship ceremony per year. In that time, some disciples departed, others are gone forever, some have returned, and some have always remained. However, I was always there. Si Fu usually says that the person needs to feel calm to walk away whenever they want, and to return as well. Because it's a lifetime commitment, you need to be whole and with an open heart for all these ups and downs. However, they are not simple. And at that exact moment, as creative as I was, I couldn't even begin to imagine what was to come in my relationship with Daniel Eustáquio. A relationship that is unparalleled in the West, but after 23 years in the Kung Fu Family, I learned how rewarding and challenging it can be.
Daniel é de uma geração diferente da minha... Outro dia, ele estava me contando sobre sua talvez única experiência numa video locadora com seu pai, algo que eu fazia todas as Sextas com minha mãe. Daniel sem saber e sem planejar, promoveu um marco muito especial na minha trajetória: Ele foi o primeiro discípulo a me pedir para entrar na Família Kung Fu. 
Esse momento é bem simbólico para mim, pois até então eu convidava a pessoa, mas acho que o interesse precisa ser do aspirante a membro. Eu mesmo pedi a meu Si Fu em Fevereiro de 2007. 
Era uma tarde qualquer no Mo Gun da minha Família Kung Fu, naquela ocasião eu tinha uma conversa com um discípulo que estava se afastando, e no momento em que pedi para ouvi-la um pouco o Daniel chegou. Foi um momento bem curioso, talvez até mágico, pois em seguida Daniel falou do seu interesse em entrar para  a Família. Me permiti abrir um sorriso naquele momento. Afinal, o praticante escolhe o estilo, a Família, o Si Fu que deseja. Além disso, o período pelo qual vai se dedicar, também é escolha sua. E naquela única hora, tudo isso acontecia bem diante de mim. 

Daniel is from a different generation than mine... The other day, he was telling me about his perhaps only video rental experience with his father, something I did every Friday with my mother. Daniel, without knowing and without planning, promoted a very special milestone in my trajectory: He was the first disciple to ask me to join the Kung Fu Family.
This moment is very symbolic for me, because until then I invited the person, but I think the interest needs to be from the aspiring member. I even asked my Si Fu the same in February 2007.
It was any given afternoon at my Kung Fu Family's Mo Gun, on that occasion I had a conversation with a disciple who was leaving, and at the moment I asked to listen from she a little, and Daniel arrived. It was a very curious moment, perhaps even magical, as Daniel then spoke of his interest in joining the Family. I allowed myself to smile at that moment. After all, the practitioner chooses the style, the Family, the Si Fu he wants. In addition, the period for which he will dedicate himself is also his choice. And in that single hour, all of this was happening right in front of me.


Além do meu Si Hing Leonardo, outros Mestres também estiveram presentes e deixaram suas considerações ao microfone durante a Cerimonia. Meus Si Suk Felipe Soares e Ricardo Queiroz, fizeram essa gentileza. Ambos que tiveram e continuam tendo papel fundamental em minha trajetória. Também quero destacar as presenças da Sra Cátia Reis e da Sra Flavia Bambrilla, esposas do Si Hing Leonardo e do Si Suk Ricardo, respectivamente. 

In addition to my Si Hing Leonardo, other Masters were also present and left their considerations on the microphone during the Ceremony. My Si Suk Felipe Soares and Ricardo Queiroz, did this kindness. Both who had and continue to play a fundamental role in my trajectory. I also want to highlight the presence of Mrs Cátia Reis and Mrs Flavia Bambrilla, wives of Si Hing Leonardo and Si Suk Ricardo, respectively.

Em 2006, eu recebi um “Tong Jong” de presente da minha irmã Kung Fu Paula Gama. Ela também fez um aniversário surpresa para mim naquele mesmo ano quando me entregou a peça de roupa. Eu estive com essa vestimenta em muitos momentos marcantes, até mesmo minha formatura na faculdade. Mas naquele momento, eu achei que deveria dá-lo para o Daniel. Afinal, durante a Cerimonia, olhei algumas vezes para o Daniel sentado meio desconjuntado na cadeira como alguém da idade dele faria, com um brinco de argola, sua namorada presente... E não pude evitar de lembrar da minha própria trajetória. Quando ganhei essa peça de roupa, aquele era de certa forma um retrato da minha vida... E como sinal de boa sorte e para materializar o quão importante aquele momento era para mim, resolvi lhe dar o meu Tong Jong favorito. 

In 2006, I received a “Tong Jong” as a gift from my Kung Fu sister Paula Gama. She also had a surprise birthday for me that same year when she handed me the garment. I wore this outfit in many memorable moments, even my college graduation. But at that moment, I thought I should give it to Daniel. After all, during the Ceremony, I looked a few times at Daniel sitting a bit disjointed in the chair as someone his age would, with a hoop earring, his girlfriend present... And I couldn't help but remember my own trajectory. When I got this piece of clothing, that was, in a way, a portrait of my life... And as a sign of good luck and to materialize how important that moment was for me, I decided to give him my favorite Tong Jong.

Meu Si Fu costuma dizer que devemos pegar a vida do ponto em que nosso ancestral nos deixou, seja ele nosso pai ou Si Fu, e fazer melhor a partir dali. Bem, no dia do meu Baai Si, foi Si Fu que me abraçou apertado e eu não sabia nem como retribuir. Nunca fui muito de demonstrar carinho dessa maneira, sempre mais fechado coube a Si Fu faze-lo em Maio de 2007. Porém, Daniel por outro lado já consegue demonstrar afeto de maneira natural. E já mostra, que de maneira organica, conseguiu dar um passo a frente do que consegui bem no dia do meu Baai Si. Prece-me um bom sinal para começar uma nova história.

My Si Fu usually says that we should pick up life from the point where our ancestor left us, be it our father or Si Fu, and do better from there. Well, on the day of my Baai Si, it was Si Fu who hugged me tight and I didn't even know how to reciprocate. I was never very fond of showing affection in this way, it was up to Si Fu to do it in May 2007. However, Daniel on the other hand is already able to show affection in a natural way. And he already shows that in an organic way, he managed to take a step forward from what I achieved on the day of my Baai Si.It gave me a good sign for this new story.

 

A Disciple of Master Julio Camacho
Thiago Pereira "Moy Fat Lei"
moyfatlei.myvt@gmail.com


 


 

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

BLADE RUNNER dinner style w/ Carlos Antunes


Numa noite de Sexta, saí do Méier para ir ao encontro do meu irmão Kung Fu Carlos Antunes. Ele havia me convidado para jantarmos juntos. Como nos encontramos com certa frequência, não vi nada demais, porém estranhei o bairro que ele escolheu. Ainda tentei argumentar sugerindo que escolhêssemos algum local em Ipanema, onde ele reside, mas ele estava firme em sua decisão. Cheguei mais cedo, como de costume, e fui até um McCafé para tomar um espresso e carregar meu telefone. Passados alguns minutos, Carlos avisou que havia chegado, nos encontramos então no Largo que dá nome ao bairro. Muito animado como sempre, Carlos me cumprimentou com seu forte abraço que lhe é característico. A energia do Carlos sempre está lá no alto, e quando não está, ele faz com que esteja. Isso é algo que admiro nele, pois eu não consegui desenvolver essa habilidade até hoje. 
Carlos sabia exatamente para onde estava indo, e enquanto desviávamos de pessoas que andavam apressadas para chegar a estação do metro e irem para casa, finalmente passamos por um misterioso portão de grade que parecia não levar a lugar nenhum. Ele ficava espremido entre duas construções, e mesmo passando ali de bicicleta pelos últimos quatro anos, nunca havia reparado. Foi quando reparei algumas mesas, pessoas comendo comida chinesa, e um restaurante de Dim Sum. 
O vapor com cheiro de óleo e gordura, impregnava o ar, e conseguíamos ver ele lentamente se movendo enquanto escolhíamos uma mesa. Era possível ver a cozinha ao passar por ela, e todos estavam agitados lá dentro, enquanto as pessoas comiam calmamente. Finalmente escolhemos nossa mesa. Eu ainda estava me situando, ainda estava tentando acreditar que aquele local estava ali por tanto tempo, e eu nem havia percebido. Lembrei-me da passagem 'O caminho do surf', que Si Fu descreveu logo no início do seu livro 'O Tao do Surf' [Camacho, Julio. 2002]. Enquanto eu divagava, meus olhos cruzaram com os de Carlos Antunes, que com um grande sorriso, parecia muito feliz. 

One Friday night, I left Méier wild neighborhood to meet my Kung Fu brother Carlos Antunes. He had invited me to have dinner together. As we meet quite often, I didn't see anything special, but I was surprised by the neighborhood he chose. I even tried to argue by suggesting that we choose a location in Ipanema, where he lives, but he was firm in his decision. I arrived early, as usual, and went to a McCafé to get an espresso and charge my phone. After a few minutes, Carlos announced that he had arrived, so we found ourselves in the Plaza that gives the neighborhood its name. Very excited as always, Carlos greeted me with his characteristic strong hug. Carlos' energy is always up there, and when he's not, he makes it so. That's something I admire about him, as I haven't been able to develop that skill until today.
Carlos knew exactly where he was going, and as we dodged people rushing to the subway station and heading home, we finally passed a mysterious grid gate that seemed to lead nowhere. It was wedged between two buildings, and even though I'd been cycling there for the past four years, I'd never noticed. That's when I noticed some tables, people eating Chinese food, and a Dim Sum restaurant.
The steam, smelling of oil and grease, permeated the air, and we could see it slowly moving as we chose a table. You could see the kitchen as you passed it, and everyone was bustling inside as people ate quietly. We finally chose our table. I was still positioning myself, I was still trying to believe that this place had been there for so long, and I hadn't even noticed. I remembered the passage 'The way to surf', which Si Fu described at the beginning of his book 'The Tao of Surf' [Camacho, Julio. 2002]. As I rambled on, my eyes met those of Carlos Antunes, who with a big smile, looked very happy.
Eu resolvi fazer uma brincadeira com Carlos, assim que descobri que infelizmente não havia cerveja Tsing Tao no estabelecimento. Resolvi pedir uma cachaça chinesa, pois já a conhecia de três anos antes. Essa bebida alcóolica tem mais teor alcoólico do que álcool ao que parece. A bebida veio em dois recipientes de cerâmica [FOTO], e após brindarmos, Carlos virou de uma vez todo o conteúdo do copo enquanto eu apenas mal molhei os lábios já querendo rir. Carlos ao colocar o copo na mesa, já era outra pessoa[risos]. E em um impulso, ele se aproximou de mim, segurou firme em um dos meus ombros e disse com um grande sorriso e em um volume mais alto do que ele se lembra - “Si Hing! Eu gosto de você pra caramba, cara!” - Eu comecei a rir e Carlos continuou - “Eu já vim aqui com uma galera, mas eu falei que tinha que te trazer! Eu gosto de você pra caramba, cara! Isso aqui é muito 'Blade Runner! É a sua cara!'”- Carlos disse outras coisas mais engraçadas ainda, mas fica para um outro artigo... risos.

I decided to play a prank on Carlos, as soon as I found out that unfortunately there was no Tsing Tao beer in the establishment. I decided to order a Chinese liquor very heavy on alcohool, as I had already known it for three years. This alcoholic drink has more alcohol content than alcohol iself apparently. The drink came in two ceramic containers [PHOTO], and after we toasted, Carlos drained the entire content of the glass at once while I barely wet my lips, wanting to laugh. When Carlos put the glass on the table, he was already a different person [laughs]. And on impulse, he approached me, took a firm hold on one of my shoulders and said with a big smile and in a louder volume than he remembers - “Si Hing! I really like you, man!” - I started to laugh and Carlos continued - “I already came here with other friends, but I said it! I really like you, man! This is very 'Blade Runner! It's just like you!'”- Carlos said other even funnier things, but that's for another article... laughs.


Quando Carlos comentou sobre “Blade Runner”[1982], eu fiquei mais feliz ainda. Todo aquele ambiente me era familiar, mas eu não estava lembrando a razão. De fato, “Blade Runner”[1982] é um dos meus filmes favoritos, e me lembrei de quando o Deckard[Harrison Ford] é apresentado ao público comendo comida chinesa em um ambiente com muito Neon e chuva.- “Faltou só chover...” - Ponderei.

When Carlos still commented on “Blade Runner” [1982], I was happier. The whole environment was familiar to me, but I couldn't remember why. In fact, “Blade Runner” [1982] is one of my favorite movies, and the place reminded me of when Deckard [Harrison Ford] is introduced to the audience, eating Chinese food in a very neon and rainy environment. - “It could rain now. ..” - I pondered.


Conversamos sobre muitas coisas, e Carlos usou todo o seu conhecimento adquirido em muitas horas e momentos de Vida-Kung Fu para pedir a comida adequada na ordem adequada. Enquanto isso, bebíamos cada vez mais cachça chinesa. Em determinado momento, a garçonete veio com a garrafa quase vazia lá de dentro mostrando o teor alcoólico - “Gente, é isso aqui que vocês estão bebendo!” - Pedimos uma última rodada, apesar de sua preocupação[risos]. Outros clientes, perguntavam ao Carlos o que ele estava pedindo, curiosos com sua precisão nas escolhas. Por fim, nos foi dito que o cozinheiro queria nos conhecer. Carlos me acompanhou até um ponto em que pedi o UBER, e enquanto caminhávamos ele estava bem concentrado em descobrir a razão do cozinheiro querer nos conhecer. - “O que você acha que ele viu na gente?” - Ele me indagou. Bem, isso nunca saberemos. Podem ter sido as escolhas no cardápio... Pode ter sido a quantidade colossal de álcool que ingerimos ou pode ter sido a capacidade de escolher adequadamente apesar do álcool...  Risos. Mas estes são apenas fragmentos de memória, de uma noite noar em pleno Rio de Janeiro. 

We talked about many things, and Carlos used all his knowledge gained from many hours and moments of Kung Fu- Life to order the proper food in the proper order. Meanwhile, we drank more and more Chinese liquor. At one point, the waitress came with the almost empty bottle inside showing the alcohol content - "Guys, this is what you're drinking!" - We asked for one last round, despite her concern [laughs]. Other customers asked Carlos what he was ordering, curious about his precision in his choices. Finally, we were told that the chef wanted to meet us. Carlos accompanied me to a point where I asked for the UBER, and as we walked he was very focused on finding out why the chef wanted to meet us. - “What do you think he saw in us?” - He asked me. Well, that we'll never know. It could have been the choices on the menu... It could have been the colossal amount of alcohol we ingested or it could have been the ability to choose properly despite the alcohol... Laughter. But these are just fragments of memory, of a night in the middle of Rio de Janeiro.


A Disciple of Master Julio Camacho
Thiago Pereira "Moy Fat Lei"
moyfatlei.myvt@gmail.com


 



terça-feira, 8 de novembro de 2022

“A life with Kung Fu, it's a precise life” -An essay on Baat Jaam Do

 

Você precisa entender como eram as coisas no final dos anos '80 e início dos anos '90 no Rio... Não era incomum encontrar algum profissional de artes marciais, que tivesse uma formação obscura. O carisma dessas pessoas, compensava todas as dúvidas. E isso perdurou por muito tempo...
Nos final dos anos '90, encontrei a Moy Yat Ving Tsun no meu bairro, eu estava concentrado em aprender a usar o “boneco de madeira”, que eu chamava de “Mudjong” e que descobri que um nome mais apropriado em termos sistemicos seria “Muk Yan Jong”.  Não me importei com as armas que o Sistema dispunha num primeiro momento... E talvez tenha sido no ano seguinte, que surgiu uma fita VHS no Mo Gun. Esta fita era apresentada as pessoas que nos procuravam pela primeira vez. Nela, podíamos ver dentre outras coisas, pequenos clipes do Grão Mestre Leo Imamura[meu Si Gung], ilustrando cada Domínio do Sistema Ving Tsun através de movimentos.
O último clipe, era ele usando o “Do”, que são facas que se tinha acesso apenas no que eu entendia como “O último nível do Sistema”. 
Na cena, o Mestre Senior Nataniel Rosa[meu Si Baak] o abordava com uma espada, e Si Gung com movimentos bem fluidos, usava as facas para neutralizar a situação e ainda tomar a espada das mãos dele. Aquilo era muito legal! Eu tinha apenas uns 15 ou 16 anos de idade... Então aquilo me chamou muito a atenção! Mas o meu paradigma, é que “chegar até o último nível” era quase impossível... Devido a experiências pregressas, não entendia que na Moy Yat Ving Tsun, essa possibilidade existia...
Para completar, ninguém podia assistir as práticas do “Baat Jaam Do”... A não ser que estivesse naquele Domínio. Esse ar misterioso, me encantava... Mas o boneco de madeira ainda encantava mais risos.

You need to understand how things were in the late '80s and early '90s in Rio... It wasn't uncommon to find a martial arts professional, who had an obscure background. The charisma of these people compensated for all doubts. And that went on for a long time...
In the late 90's, I found Moy Yat Ving Tsun in my neighborhood, I was focused on learning how to use the “wooden dummy” as soon as I could, which I called “Mudjong” and I found that a more appropriate name in systemic terms would be “Muk Yan Jong”. I didn't care about the weapons that the System had at first... And maybe it was the following year, that a VHS tape appeared in the Mo Gun. This tape was presented to people who came to us for the first time. In it, we could see, among other things, small clips of Grand Master Leo Imamura [my Si Gung], illustrating each Domain of the Ving Tsun System through movements.
The last clip was him using the “Do”, which are knives that you only had access to in what I used to understand as “The last level of the System”.
In the scene, Senior Master Nataniel Rosa [my Si Baak] approached him with a sword, and Si Gung with very fluid movements, used knives to neutralize the situation and still take the sword from his hands. That was really cool! I was only 15 or 16 years old... So that really caught my attention! But my paradigm is that "getting to the last level" was almost impossible... Due to previous experiences, I didn't understand that in Moy Yat Ving Tsun, this possibility existed...
On top of that, no one could attend the practices of the “Baat Jaam Do”… unless they were in that Domain. That mysterious air enchanted me... But the wooden dummy still enchanted me more lol.
[Prática com o Do em uma das antigas residências do Si Fu]
[Practice with Do in one of Si Fu's former residences]

Os anos foram passando e passando... E eu cheguei lá! Nenhuma das minhas centenas de revistas de artes marciais, tinha sequer chegado perto de me mostrar o caminho até o último Domínio de um Sistema como o Ving Tsun. Foi necessária muita perseverança e paciência do meu Si Fu, o Mestre Senior Julio Camacho. 
Quando se começa tão novo, não existem apenas aspectos positivos...Pois haviam muitos problemas de maturidade e de excesso de vontade. Cada uma dessas camadas que nos impedem de nos desenvolvermos, é retirada de uma maneira diferente, em uma natureza diferente do Sistema e de abordagem na “Vida-Kung Fu”. 
Eu achava, que mesmo numa situação completamente desfavorável, eu precisa “partir para dentro”... Era melhor apanhar, do que desistir... Com esse tipo de mentalidade, me machuquei bastante na reta final do Domínio “Mui Fa Jong”. E por não ter uma compreensão mais ampla, não entendia que essa atitude era incondizente com o uso de duas facas.

The years went by and by... And I got there! None of my hundreds of martial arts magazines had even come close to showing me the way to the ultimate Domain of a System like Ving Tsun. It took a lot of perseverance and patience from my Si Fu, Senior Master Julio Camacho.
When you start so young, there are not only positive aspects... There were many problems of maturity and excess of will. Each of these layers that prevented me from developing, was removed in a different way, in a different nature of the System and approach in “Kung Fu Life”.
I thought that even in a completely unfavorable situation, I need to "go for it"... It was better to be beaten than to give up... With this kind of mentality, I got hurt a lot in the final moments of the "Mui Fa Jong" Domain. And because  I didn't have a broader understanding, I didn't understand that this attitude was inconsistent with the use of two knives.
[Prática com o querido Si Suk Homero, em um dos antigos endereços na Barra da Tijuca]
[Practice with dear Si Suk Homero, at one of the former addresses in Barra da Tijuca]

Meu Si Fu diz que o “estado de guarda” precisa ser relaxado, para que percebamos o que está ao nosso redor. Além disso, o “Do” precisa estar leve em nossas mãos, para que consigamos manuseá-lo com assertividade. E por falar em assertividade, Si Fu nunca foi contra toda a agressividade que eu demonstrava nas práticas. Ele apenas considera que uma agressividade não canalizada, se torna expansiva. E para a prática do “Baat Jaam Do”, movimentos concisos e precisos, são fundamentais. Por isso também, Si Fu costuma falar que - “Uma vida com Kung Fu, é uma vida precisa”.
Escrever é mais fácil do que fazer... Consegue imaginar o quão difícil é relaxar e estar pronto, ao mesmo tempo, com as facas nas mãos? 
O Sistema Ving Tsun é um conjunto de Domínios com diferentes naturezas... Algumas dessas naturezas, você consegue se conectar melhor, outras te desafiam...

My Si Fu says that the "state of guard" needs to be relaxed, so that we realize what is around us. In addition, the “Do” needs to be light in our hands, so that we can handle it with assertiveness. And speaking of assertiveness, Si Fu was never against all the aggressiveness I showed in the practices. He just considers that unchanneled aggression becomes expansive. And for the practice of “Baat Jaam Do”, concise and precise movements are fundamental. That's why Si Fu usually says that - "A life with Kung Fu is a precise life".
Writing is easier than doing... Can you imagine how hard it is to relax and be ready, at the same time, with knives in hand?
The Ving Tsun System is a set of Domains with different natures... Some of these natures, you can connect better, others challenge you...

O Ving Tsun é um “Sistema de Variação”, ele varia diferentes naturezas promovendo um aprendizado através do desenvolvimento humano. Sendo um Sistema de variação, ele possui também diferentes fases: Uma mais estruturada, outra semi-estruturada e uma não estruturada...
Então eu dei por mim, que o “Baat Jaam Do” não era o fim... Ele não só era o último Domínio da fase semi-estruturada do Sistema, como também nos permite enxergar o Sistema agora como um todo. Meu Si Fu costuma sugerir que pratiquemos de uma única vez todas as listagens, para ver como nos sentimos ao final...

Ving Tsun is a "Variation System", it varies different natures promoting learning through human development. Being a Variation System, it also has different phases: One more structured, another semi-structured and an unstructured...
So I realized that the “Baat Jaam Do” was not the end... It was not only the last Domain of the semi-structured phase of the System, but it also allows us to see the System now as a whole. My Si Fu usually suggests that we practice all the forms at once, to see how we feel in the end...

Tenho falado muito do meu Si Hing Leonardo[FOTO] por aqui, pois temos passado muito tempo de qualidade juntos. E sem dúvidas, uma das maiores transformações que percebi em alguém após acessar esse Domínio, foi no Si Hing. Ele conseguiu extrapolar o entendimento das facas, para qualquer coisa... É bem especial ouvi-lo falar... Ontem mesmo estávamos juntos estudando o “Biu Ji”, e ele apresentou algumas considerações muito engenhosas. Eu também tinha as minhas, mas sabia que algo nos separava: Uma compreensão do Si Hing, bem mais profunda, sobre a fase não-estruturada. Ninguém fala mais em estado de guarda do que ele em nossa Família... Uma guarda relaxada, porém viva, como Si Fu falou. Realmente, ontem foi mais um dia em que mesmo entendendo a estrutura de um Sistema de variação, ouvindo o Si Hing, percebo que o desenvolvimento humano nos permite ir ainda mais fundo...

I've been talking a lot about my Si Hing Leonardo[PHOTO] around here, because we've spent a lot of quality time together. And without a doubt, one of the biggest transformations I noticed in someone after accessing this Domain was in my Si Hing. He managed to extrapolate the understanding of knives to anything... It's very special to hear him speak... Just yesterday we were together studying “Biu Ji”, and he presented some very smart considerations. I had mine too, but I knew that something separated us: A much deeper understanding of Si Hing about the unstructured phase. Nobody talks more in a state of guard than he in our Family... A relaxed guard, but alive, as Si Fu said. Indeed, yesterday was another day when even understanding the structure of a System of variation, listening to Si Hing, I realize that human development allows us to go even deeper...

Desenvolvimento Humano, é deixar para trás coisas que nós tínhamos como certas... É descobrir que partes que nós tinhamos como nossas, não eram nossas de fato. É entender que através de uma dedicação relaxada, uma nova pessoa vai aflorar, e não será necessariamente a pessoa que gostaríamos que fossemos... Talvez seja alguém pior ou alguém melhor... Mas a pergunta que fica é: “Onde termina o aprendizado proporcionado pelo Sistema Ving Tsun? E será que queremos nos encontrar com nossas novas versões quando chegarmos lá?

Human Development, is leaving behind things that we took for granted... It's discovering that parts that we had as ours, weren't really ours. It's understanding that through a relaxed dedication, a new person will emerge, and it won't necessarily be the person we would like us to be... Maybe it's someone worse or someone better... But the question that remains is: "Where does this learning provided by the Ving Tsun System ends? And do we want to meet our new versions when we get there?


A Disciple of Master Julio Camacho
Thiago Pereira "Moy Fat Lei"
moyfatlei.myvt@gmail.com